Alfonso Cuarón é um dos diretores mexicanos da atual geração que ganharam as graças de Hollywood, junto com Alejandro G. Iñárritu e Guillermo del Toro, a ponto de dirigir nada menos que o terceiro título da franquia Harry Potter, a ficção científica distópica Filhos da Esperança (2006) e o popular drama de sobrevivência Gravidade (2013), que lhe rendeu um Oscar de Melhor Direção junto com seu mais recente Roma (2018).

Antes de todo esse sucesso em terras ianques, Cuarón foi responsável por algumas boas obras independentes, e a principal delas é E Sua Mãe Também, que funciona dentro do subgênero filme de estrada e do chamado coming-of-age, acompanhando dois melhores amigos adolescentes (um de classe alta e outro da trabalhadora) em uma viagem com a ex-esposa de um primo próximo, com uns 10 anos a mais que eles. E claro que, assim como a maioria dos filmes coming-of-age, as descobertas sexuais acabam dando as caras, assim como o amadurecimento progressivo dos protagonistas sob influência de Luisa, personagem da excelente Maribel Verdú.

Porém, engana-se quem vê só uma história de amadurecimento aqui! Durante a viagem de Luisa, Julio (Gael García Bernal) e Tenoch (Diego Luna), a direção sutil de Alfonso insere breves comentários sociopolíticos com aquilo que mostra, seja pela passagem de uma cidadezinha pobre e esquecida no meio do campo (de onde se originou a empregada doméstica de um dos garotos) ou por recorrentes encontros com figuras de autoridade rendendo o povo comum por algum motivo nunca especificado. Afinal, apesar de ser lançado em 2001, o longa é situado em 1999, ano que marcou uma mudança política drástica no México, depois de sete décadas de governança de um mesmo partido desde a Revolução Mexicana. O próprio fato de os dois jovens serem de classes econômicas distintas não é à toa e o filme faz questão de focar nesse contexto para sua ideia final – ou ao menos a uma delas.

Como já citado, o espaço por onde passam nossos viajantes é de suma importância. Com isso, o diretor de fotografia Emmanuel Lubezki trabalha com planos extremamente abertos e usando principalmente luz natural, como se pretendesse evitar qualquer alteração artificial nas paisagens que filma. Isso inclui até as cenas noturnas que geralmente são iluminadas pelos faróis ou lanternas do carro ou por alguma lâmpada ambiente. A propósito, vale apontar que todo o longa foi filmado por uma câmera na mão, dando um ar semi-documental ao projeto – algo reforçado ainda mais pelos personagens secundários encontrados ao longo da estrada que não são encarnados por atores, e também pelo improviso dos profissionais, algo que se funde perfeitamente ao minimalismo formal e naturalista do filme.

Como André Bazin defendia, o cinema não necessariamente precisa expor o real, mas é feito, acima de tudo, para ver o real através das lentes da câmera. Aqui, por exemplo, sua visão semi-documental se choca com a poesia de como Lubezki filma as paisagens do interior do México, quase como uma ode ao país em que nasceu (algo que pode ser percebido no mais recente Roma também, embora em uma abordagem mais nostálgica).

Mas é impossível falar sobre E Sua Mãe Também sem apontar o desafio que a obra representa a conceitos como monogamia e amizade. Esbanjando um erotismo extremamente natural, sem jamais sequer flertar com o pornográfico, o sexo aqui é narrativo, jamais exploratório. Há também a reviravolta do final da projeção, já preparada desde seu início, e relacionada às questões que a personagem de Verdú tem com a morte e com o passar do tempo. Tendo um final melancólico mas ao mesmo tempo poético, o projeto ainda conta com uma narração de Daniel Giménez Cacho que, se soa expositiva demais em certos momentos, em outros complementa o tom contemplativo de algumas passagens, como aquela que envolve uma pequena homenagem no meio da estrada, a qual revela muito mais do que os olhos podem ver em um país tão rico de pequenas histórias, algo inerentemente relacionado, mais uma vez, à jornada de Luisa, interpretada por Verdú como uma mulher solitária que, enfrentando uma situação desesperadora, acaba adquirindo forças para aproveitar a vida antes que seja tarde demais, ao passo que Bernal e Luna encarnam a jovialidade masculina irresponsável e (sim) insegura com uma naturalidade tocante.

Cuarón então acaba gerando um misto de sensações e ideias em pouco mais de 1h40 de duração. É um filme que faz sorrir pela interação dos personagens, faz chorar pela situação do país e pelos conflitos existenciais abordados despretensiosamente, faz contemplar pela poesia da câmera de Lubezki dirigida com uma firmeza invejável por Cuarón, que continua surpreedendo com sua versatilidade. É o cinema independente mexicano no ápice de sua sensibilidade narrativa e cinematográfica na virada do milênio.