Cinco Tipos de Medo é daqueles filmes cheios de coisas a se pensar. O longa concilia o drama e o thriller social com uma obsessão pelo ritmo que remete muito a Cidade de Deus (Meirelles, Lund, 2002), especialmente na maneira como utiliza a câmera na mão, a montagem frenética e diversas movimentações, além de uma estilização do plano muito evidente em diversos momentos. Mas o coração do filme está na forma como as cinco histórias se encaixam, partindo do princípio de que é um longa sem uma linearidade estabelecida, o que gera momentos bem impactantes quando algo que vimos antes acontece, enfim, em tempo real.
O filme segue Murilo (João Vitor Silva), um músico passando pelo luto da mãe que se apaixona por Marlene (Bella Campos), uma enfermeira que cuidou de sua progenitora e vive um relacionamento abusivo com o criminoso Sapinho (Xamã). Nisso, Luciana (Bárbara Colen), uma policial dedicada, e Ivan (Rui Ricardo Diaz), advogado de Sapinho, se envolvem na trama em pontos cruciais.
Ao mesmo tempo em que trabalha a vertigem total da sociedade urbana em meio ao caos da saúde e da segurança pública, o filme aborda a violência de forma muito crua. Com isso, foge de qualquer relação com as ideias de Ivana Bentes em seu texto sobre a “cosmética da fome”, onde ela argumenta sobre filmes que enfeitam e perfumam uma realidade que deveria ser puramente suja e sofrível. Aqui, a estilização serve à angústia, não ao fetiche.
A obra lida muito bem com a contextualização do Brasil pós-pandemia, mas destaca-se mesmo na construção de tensão via montagem, escolhendo cirurgicamente o que mostrar agora e o que revelar depois. A tensão só cresce à medida que percebemos para onde a narrativa irá se desenrolar.
Vencedor de prêmios principais no Festival de Gramado 2025, o filme justifica o entusiasmo da crítica. Pela maneira como lida com as falhas do sistema urbano e constrói um drama angustiante em cima de um “casal bonitinho”, aliada a uma estética publicitária (que evoca o dinamismo do cinema nacional dos anos 2000), entende-se o motivo do seu sucesso.
É muito gratificante ver um filme ambientado em Cuiabá, fora do eixo RJ-SP, com tamanho cuidado na construção visual e narrativa. Bruno Bini insere problemáticas sociais ora de maneira sutil, ora direta, quebrando o estigma do “filme regional” e colocando Cinco Tipos de Medo como uma das grandes pérolas do cinema de gênero em 2025. O saldo é completamente positivo: um equilíbrio habilidoso entre referências do cinema de crime nacional e internacional e a urgência da nossa própria realidade.