Em meio a uma crise criativa da moderna Disney, é curioso revisitar as obras de uma era considerada a “idade das trevas” do estúdio. As animações dos anos 1970-80 são escondidas de produtos e de qualquer merchandising, e mesmo no catálogo do streaming nunca estão na página inicial. A exceção é A Pequena Sereia, considerado o marco da “renascença Disney”, período de sucesso que até hoje é usado como parâmetro de comparação. No entanto, vários filmes ótimos do estúdio, e alguns até bem queridos, são dessa época, entre meus favoritos estão por exemplo Robin Hood (1973) e Oliver e Sua Turma (1988) e, é claro, As Peripécias de um Ratinho Detetive (1986).

A ideia de um filme inspirado nas aventuras de Sherlock Holmes já existia desde a década de 1970 no estúdio, e a série de livros infantis Basil da Rua Baker, em que um ratinho morador do famoso endereço 221B é contratado para investigar os mais diversos crimes, era perfeita para uma adaptação. No entanto, por conta de similaridades com Bernardo e Bianca (1977), ficou em um limbo até que foi resgatada durante a conturbada produção de Caldeirão Mágico (1985). As Peripécias de um Ratinho Detetive foi aprovado então como projeto alternativo ao longa que viria a ser considerado o maior fracasso da Disney até então.

A animação segue a mesma premissa da série de livros, na qual o nome Basil foi dado em homenagem a Basil Rathbone, ator que deu vida a Sherlock Holmes em 12 filmes nos anos 1940. Da mesma forma que seu equivalente humano, Basil também tem um grande amigo que o acompanha em suas aventuras e registra os casos, o doutor David Q, Dawson, e um arqui-inimigo o chefão do crime, professor Ratagão (Ratigan, no original).

A aventura do filme, porém, não é uma adaptação, sendo criada especialmente para o projeto. Aqui, Dawson e o detetive acabaram de se conhecer quando Olivia, filha de um inventor de brinquedos de corda, pede ajuda para um relutante Basil para encontrar seu pai, que havia sido sequestrado por um morcego perneta.

O ratinho detetive é uma adaptação surpreendentemente fiel do personagem Sherlock (e minha versão favorita), com a obsessão por seguir pistas, usar a lógica e perceber padrões que outros não conseguem, bem como a arrogância e o desprezo por qualquer pessoa ou conhecimento que saia da sua zona de conforto e que não acrescente à investigação. Dawson, enquanto isso, é o coração que acolhe Olivia e tira Basil de seus devaneios para que ele possa usar melhor suas habilidades e resolver o caso. Ratagão, por sua vez, é tão extravagante quanto cruel no controle de seus comparsas e para atingir seus interesses soberbos. Aqui vale um parêntese para uma pequena trivia: o vilão é dublado pelo superbo Vincent Price em inglês, mas André Filho, que costumava dublar heróis fortões, como Superman ou Rocky Balboa, também faz um trabalho incrível em passar o deboche maléfico afetado do personagem.

A animação em si é mais soturna do que os filmes posteriores do estúdio, com alguns momentos de puro terror mesmo, como a introdução do Morcegão (no original, Fidget) em meio a sombras e relâmpagos, bem como a sequência que termina com a execução de um dos capangas de Ratagão pela gatinha roliça fofa, Felícia. O terror culmina na sequência do embate final entre Basil e Ratagão, que se passa entre as engrenagens do Big Ben – esta, aliás, inclui o primeiro uso de CGI em uma animação Disney e foi inspirada em uma cena de Castelo Cagliostro (1979), de Hayao Miyazaki.

Apesar disso, ainda é um filme feito para famílias, como típico do estúdio; portanto, a leveza e a comédia são bem representadas também. O humor vem de piadas mais simples, como na interação dos ratinhos com o cãozinho beagle enorme (e meio de transporte) Toby, e também de maneira mais refinada, a exemplo da canção que Ratagão gravou especialmente para a morte de Basil. A trilha sonora, aliás, é assinada pelo estupendo Henry Mancini, compositor de Moon River e do tema da Pantera Cor-de-Rosa, entre outros sucessos, e para o longa entrega uma das melhores canções da Disney.

O filme foi considerado um sucesso modesto pelo estúdio, o que foi o suficiente para que os executivos decidissem manter a divisão de animação, abalada depois do fracasso retumbante de Caldeirão Mágico. John Musker e Ron Clements, dois dos diretores do longa, seriam logo em seguida alguns dos responsáveis por vários dos filmes da renascença, como A Pequena Sereia (1989) e Aladdin (1992), e até de sucessos mais recentes como Moana (2016). Hoje, As Peripécias de um Ratinho Detetive é revisto como o possibilitador da ascensão da Disney ao patamar inalcançável atingido nos anos seguintes.

No fim das contas, é curioso imaginar que esse período — no qual o estúdio estava criando obras adaptadas de livros, mas ainda assim originais, com inovações tecnológicas e tendo imenso cuidado na construção de narrativas e no design criativo dos personagens — foi chamado de “trevas”; como irá ser chamado o atual? A Disney não tem mais interesse em promover ideias originais em longas-metragens, seja no texto ou na animação em si (apesar de permitir em curtas, como os sob a alcunha Sparkshorts); esgota o mercado com as versões live-action das animações, bem como inúmeras continuações; e vez ou outra aparece alguma tentativa de revitalização, que decepciona no final. Qual será o “ratinho detetive” que irá inspirar uma nova renascença do estúdio? A história vai nos dizer.