A proposta do documentário é de um caráter bem educativo sobre a história da população negra no Brasil, que vai destrinchando mais da cultura afro-brasileira através dos bailes de black music do passado. O didatismo é bem típico de documentários que, apesar do seu conteúdo relevante e enriquecedor, não parecem querer se estruturar de maneira a transmitir sua mensagem na forma e, assim, se mantém em uma zona de conforto para chegar em questões mais óbvias no âmbito sociológico, como “o Brasil é um país muito racista”. Mas, quando a narrativa vai destrinchando o cenário musical, as camadas vão abrindo um caminho mais interessante e mais organizado dentro do que o documentário constrói no seu núcleo.
A soul music é conhecida por ser um estilo musical influente e característico, com raízes nas comunidades dos EUA dos anos 50 e 60. Portanto, é utilizada como um veículo de compreenção das ideias de identidade negra e como isso foi sendo construído no Brasil do século XX — o que explica bastante sobre uma certa devoção de parte do documentário ao James Brown e ao Tim Maia; o James, por popularizar o gênero no mainstream junto com pioneiros como Ray Charles e Nina Simone; e o Tim Maia por ter sido quem trouxe o soul para o Brasil depois de retornar dos EUA, ajudando também outros grandes nomes do soul brasileiro como Cassiano, Toni Tornado, Gerson King Combo, que também recebem destaques à parte no documentário e que, para quem tem apreço pelo estilo, pode instigar leigos a conhecerem mais.
Quando o documentário enfim adentra nos bailes black, tem o seu maior êxito em equilibrar os aspectos musicais e políticos. Começando pelas influências internacionais, quando os vinis importados circulavam nas pistas com o que havia também na música brasileira. O grande expoente disso foi o Movimento Black Rio, que surgiu no Rio de Janeiro nos anos 70. Como um todo, traz uma forte imersão para o que se tratava tudo isso: não apenas um espaço de lazer um tanto ritualístico, mas também de afirmação da própria identidade e da cultura como uma forma de resistência à toda a discriminação. O caráter mais politizado desses movimentos se ressalta ainda mais por conta da ditadura militar, que fortaleceu a violência no país como algo institucional.
É como se a alegria e a diversão fossem bruscamente interrompidas para fortalecer o elemento manifesto daquelas comunidades; porque de fato foram, pois o governo militar utilizava-se do mesmo modus operandi estatal de repressão, mas agora de forma mais direta e prática. O fato desses espaços para os negros do Brasil serem consolidados em pleno auge do regime só evidenciam mais como essa cultura cutucava a ferida sobre questões raciais na maneira de se expressar musicalmente.
O documentário termina de forma simbólica com Olhos Coloridos, de Sandra de Sá, que foi composta por Macau após um episódio de racismo que ele sofreu. Isso traz à tona muito da ideia do projeto de mostrar como aspectos referentes à cultura negra são construídos como uma forma de orgulho de ser quem é e como é. Macau transformou um episódio lamentável de injustiça em um hino da música nacional, mostrando como se assenhoreou de sua dor e a transformou em potência; assim, o que outros viam nos negros como ridículo e vergonhoso — estilo de cabelo, roupa e música — se tornou algo para se abraçar e fazer daquela cultura uma força contra qualquer forma de discriminação, mantendo o legado e a história vivos na raíz.