Em Ainda Estou Aqui (2024) acompanhamos Eunice Paiva (Fernanda Torres) e seus 5 filhos lidando com o desaparecimento de Rubens Paiva (Selton Melo), ex deputado levado pelo exército no período da Ditadura Militar que nunca mais foi visto. Rubens foi levado por seu histórico político e seu envolvimento com exilados comunistas, inimigos da ditadura. Passou por sessões de tortura e faleceu pelos diversos ferimentos que sofreu. A partir do momento que Rubens é levado, o filme vira completamente e começamos a acompanhar bem de perto Eunice, que também é levada pelos militares junto de sua filha de 15 anos. Daí vemos a luta para descobrir o que houve e manter a memória de Rubens para sempre no imaginário de quem assiste à obra.

É um filme que mantém uma estética sóbria e mais convencional em boa parte do tempo, com Salles criando uma mise-en-scéne muito viva e naturalista, já apresentando e aproximando o espectador de cada um dos membros da família. É um começo já bem cativante que apresenta bem cedo a problemática do filme: pouco depois dessa introdução, acompanhamos a filha mais velha e alguns amigos sendo abordados de carro pelo exército em um túnel, a abordagem é visivelmente bem agressiva e o motivo é o mesmo de sempre — os mocinhos estão atrás dos “terroristas”.

Essa imagem viva, cheia de cores e composições agradáveis é deixada de lado nas sequências em que acompanhamos os doze dias que Eunice ficou presa. Uma fotografia bem escura surge enquanto o tempo de prisão vai se estendendo, algumas composições revelam um lado bem minucioso dos sentimentos de Eunice. Mas Salles consegue se superar na condução do drama quando, após ser liberada, Eunice volta para casa e precisa esconder tudo que aconteceu de seus filhos mais novos. Somos transportados para uma situação de insegurança e injustiça o tempo inteiro, é bem intencional por parte da encenação criar essa ideia de dor e internalização da tristeza de Eunice. Ela guarda diversos sentimentos para si e o filme consegue expressar muito bem essa sobrecarga total da personagem, que vai lutar pela memória do marido até o fim.

Talvez a maior sensibilidade do Walter Salles nesse filme seja capturar um aspecto muito sentimental da imagem e do dispositivo da câmera como esse artefato de registro e resgate da memória. Essa sugestão vem principalmente da câmera analógica que a filha mais velha da família tem. Em vários momentos vemos gravações da família com essa câmera, onde o plano muda completamente de lógica. Salles explora uma estética mais caseira do rolo de filme, essa textura da imagem dá uma sensação de proximidade com a situação que o filme retrata, além de ser muito bem conciliada com uma encenação de dramas e intenções mais diretas já bem conhecido por parte do diretor. Essa câmera que registra sorrisos e abraços deixa marcada para sempre no espectador a presença e memória de Rubens com sua família em cenas que tem um sentimento bem forte.

Esse trabalho na imagem para construir a ideia de memória vem principalmente dessas sequências familiares com a câmera, mas também de toda a ideia das fotos que a família vai tirando ao longo do filme e em como o sentimento de importância dessas imagens é construído. É um filme que emociona com muita facilidade pelo tema absolutamente relevante e tocante, mas principalmente por como o diretor conduz esse melodrama e consegue tirar muita expressividade do elenco inteiro, mas principalmente de Fernanda Torres, que tem de fato uma das grades atuações do ano. Fernanda Montenegro aparece em apenas uma cena ao final do longa, onde o filme conserva esse ideal sobre a memória e a função da câmera: pouco antes de um lettering explicando que Eunice se tornou advogada e lutou por várias causas sociais após o fim da ditadura e morreu devido a Alzheimer em 2018, vemos ela bem velhinha em um almoço de família com todos os seus filhos.

Salles faz planos bem longos de Eunice (Fernanda Montenegro) sentada em sua cadeira de rodas olhando a TV com aquele olhar distante de pessoas que sofrem com Alzheimer. Os filhos falam, perguntam, mas nada ela se atenta em responder. Pouco antes do último acontecimento do filme, uma foto em família, Eunice vê na TV uma matéria sobre as vítimas da ditadura. Várias fotos e nomes passam até que Rubens aparece na tela e, só com os olhos, Eunice muda de expressão e mostra uma reação muito genuína e emotiva ao lembrar de seu marido e de toda a luta que passou. Sendo talvez a cena mais emocionante do longa, talvez seja o melhor exemplo dessa ideia da imagem como resgate da memória que o filme tem desde o começo e que para mim é onde toda a cosmologia desse filme está. Um filme que é tão sobre política, família e justiça quanto sobre o cinema e o ato de registrar algo na história. O registro final, a foto em família com Eunice alguns minutos após ver a reportagem tem um poder imagético muito tocante.

Ainda Estou Aqui é um dos grandes filmes de 2024, Walter Salles é um diretor extremamente competente na estética que propõe e conseguiu um dos filmes que mais me emocionou esse ano. Provavelmente é o filme brasileiro com maior repercussão internacional desde Cidade de Deus (2002, Fernando Meirelles), com várias previsões apontando para indicação de Fernanda Torres como uma das melhores atrizes do ano que provavelmente vai nos render alguma indicação ao Oscar.