Desde que George Orwell publicou A Revolução dos Bichos, em 1945, a obra tornou-se alvo de fortes polêmicas devido ao seu conteúdo crítico e comentários afiados em relação às tramas políticas abordadas. O livro usa uma narrativa de fábula como forma de denúncia a todas as formas de poder e de autoridade, mostrando que não se pode trocar uma forma de governo por outra, pois acabaria resultando inevitavelmente nas mesmas lógicas de hierarquia, repressão política, burocracia e dominação de classe, o que faz com que nada mude na prática. Mesmo que se trate de uma obra anti-autoritarismo (principalmente o stalinismo, o alvo principal do livro devido à traição de Stalin aos princípios revolucionários), setores conservadores e de direita passaram a interpretar a obra como anticomunista, ainda mais no contexto da época, em que o grande expoente do “comunismo” era a União Soviética — o que incomodava Orwell, que se declarava um socialista democrático.

Após a morte do autor, a obra passou a ser cooptada e distorcida como uma cartilha anticomunista pelos EUA durante a Guerra Fria. Por exemplo, a adaptação em animação de 1954 teve seu final alterado pela CIA de forma a deturpar toda a ideia central da obra e, com o tempo, o livro deixou de ser visto dentro desse propagandismo como crítica a toda forma de poder político centralizado, mas como algo que passa a ideia de que toda revolução popular está fadada ao fracasso. Até hoje, o livro possui diversas leituras e interpretações em diversas mídias, algumas muito boas, como o álbum Animals, do Pink Floyd, e algumas muito ruins, como a animação. Mas a atual, até o momento, se destaca como sendo a pior de todas, e é por razões que vão além de qualquer ideologia.

A adaptação busca uma maneira de modernizar a história e deixá-la mais infantilizada, obviamente por ser um produto visando o público infantil. Mas a modernização da história, como a subtrama genérica da empresária gananciosa — que é uma repaginada horrorosa do Sr. Pilkington — e as montagens típicas de pré-adolescente do TikTok, não acrescenta nada de positivo e sabota o conteúdo de forma a criar um humor extremamente imbecil, que não traz nenhum tipo de carisma ou algo que faça dessa mudança uma repaginada interessante.

As caracterizações de alguns personagens ainda permanecem fiéis, como a do cavalo Sansão, que carrega o papel de personagem dramático do livro — ou pelo menos tenta, já que a inconsistência de ritmo do filme prejudica qualquer potencial de criar algo realmente comovente por conta das tentativas fracassadas de infantilizar uma história que não é nem um pouco infantil. Mas, quando se trata de personagens, os piores exemplos são Lucky e Napoleão. Lucky é para ser um protagonista criado especialmente para esse filme, como mais uma forma de amenizar o conteúdo para um olhar infantil, porém ele é um personagem tão inútil quanto raso e sem graça, a ponto de se tornar detestável, igual ao Napoleão, que no livro também é detestável, mas de forma melhor construída.

O Napoleão, que acaba se tornando o ditador da história, é outro personagem descaracterizado de maneira tenebrosa. Ele é construído para ser um personagem divertido e que vai se tornando uma figura autoritária. Até tenta-se construir um laço afetivo com o protagonista do filme, mas nada funciona de verdade devido à falta de competência para fazer arcos narrativos imprevisíveis. Fora também a motivação do personagem para agir como humano — ser bípede e usar roupas — logo na metade do filme, que é totalmente ridícula, pois é uma forma de criar empatia que não tem nada de positivamente efetivo.

Além disso, as tentativas de fazer referências mais diretas ao livro parecem muito aleatórias e sem uma caracterização mais orgânica, soando apenas como um tipo de fanservice: como trazer frases do tipo: “…no fim, já se tornara impossível distinguir quem era homem, quem era porco” e “…alguns animais são mais iguais que outros”, que parecem somente uma tentativa de relembrar de que se trata de uma adaptação da fábula e não é uma história totalmente diferente. Até a motivação para a rebelião dos animais no começo surge de maneira apressada e preguiçosa, já que todos os animais viviam submissos e, absolutamente do nada, o Lucky replica todo o discurso do Major — personagem do livro —. É mais um exemplo de uma referência mal colocada do texto original para dentro do filme, assim como todo o resto dessa animação, e ainda com espaço para uma lição de moral rasa e genérica no final de paz e amor e ajudar os outros, que foge completamente do final fatalista e melancólico que trouxe muito mais reflexões sobre estrututras sociais.