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É até cansativo falar sobre como Alfred Hitchcock influenciou o cinema moderno, especialmente quando nos referimos a popularização do chamado “olhar voyeurístico”, algo que não apenas se apresenta como uma figura de linguagem na sétima arte, como também um motor para como Hitchcock aborda a temática do desejo humano. Essa ideia revela algo bastante peculiar sobre a experiência cinematográfica, onde o diretor faz o espectador perceber como que, ao assistir a um filme, seu olhar se direciona a pessoas que não possuem a noção que estão sendo observadas. Logo, o ato de assistir um longa também é, em praticamente todos os casos, um ato voyeurista. 

Diante disso, é interessante analisar como essa influência se expande para além dos diretores tipicamente hitchcockianos — como os estadunidenses Brian De Palma e David Fincher, ou o francês Claude Chabrol —, indo até Pedro Almodóvar. A Pele Que Habito (2011) ocupa uma posição bastante curiosa na filmografia de Almodóvar, pois é simultaneamente um filme profundamente almodovariano e uma ruptura significativa com o que costumamos associar ao seu cinema. A obra surgiu logo depois de uma fase em que Almodóvar havia consolidado um cinema psicodramático, uma identidade que já rompia levemente com seus trabalhos durante os anos 80, época em que o espanhol transitava entre comédias ácidas e românticas.

Almodóvar sempre teve uma relação única com os gêneros cinematográficos. Embora o melodrama, a comédia, o noir e o romance estejam sempre presentes em seus filmes, eles raramente são tratados de forma convencional. Isso se torna ainda mais extremo em A Pele Que Habito. O filme inicia como um suspense misterioso, evoluí para uma trama de vingança, flerta com o horror corporal e inclui aspectos de ficção científica e melodrama trágico. Como resultado, o diretor dá origem a um filme que parece pertencer a diversas tradições cinematográficas e, ao mesmo tempo, não se encaixa completamente em nenhuma delas. 

A trama segue Robert Ledgard (Antonio Banderas), um cirurgião plástico que vive recluso em uma mansão, onde mantém Vera (Elena Anaya) em uma misteriosa condição de prisioneira. Robert se empenha de forma obsessiva na criação de uma nova pele artificial, altamente resistente, baseada em suas pesquisas médicas. Gradualmente, o espectador começa a entender que sua experiência científica está intimamente relacionada às tragédias de sua vida pessoal, particularmente à morte de sua esposa, Gal, que sofreu queimaduras severas em um acidente. 

A grande revelação do filme transforma totalmente o sentido de tudo o que foi apresentado até aquele momento: Vera era, na verdade, Vicente (Jan Cornet), um rapaz pelo qual Robert culpa pelo sofrimento de sua filha Norma (Blanca Suárez). Impulsionado pelo desejo de vingança, Robert sequestra Vicente e o submete a uma drástica transformação corporal, realizando cirurgias que alteram progressivamente seu corpo (e aparentemente sua identidade) até convertê-lo fisicamente em uma mulher. Nesse ponto, o filme se transforma de uma simples narrativa sobre um cirurgião que desenvolve uma nova pele em uma reflexão profundamente inquietante acerca da conexão entre corpo e identidade. Vicente persiste com suas recordações e vivências, porém agora ocupa um corpo que lhe foi atribuído. 

Dessa forma, Almodóvar estabelece uma distinção entre o que somos, o que nosso corpo aparenta ser e o que os outros impõem que devemos ser, onde a pele tem um papel simbólico essencial. Robert tem a convicção de que a ciência é capaz de aperfeiçoar, reconstruir e controlar o corpo, vendo a pele como uma tela artística, buscando criar um corpo perfeito. A mudança de Vicente para Vera não é retratada como uma vivência voluntária de autoconhecimento, e sim como um ato de violência. Almodóvar não se limita a narrar uma história de transformação de gênero; ele investiga a violência de ter a própria identidade corporal imposta por outro. O corpo deixa de ser um local de liberdade e passa a ser uma cadeia. Vera (ou Vicente) é forçada a viver em uma pele que não escolheu, e sua batalha consiste exatamente em retomar o controle sobre o que lhe foi tirado. 

Embora tenha a aparência de um filme de terror, a obra permanece fortemente conectada ao melodrama típico de Almodóvar, e assim, o horror corporal atua como um meio de intensificar esses conflitos emocionais. O corpo de Vera se transforma no ponto de convergência de todas essas questões: ele é ao mesmo tempo objeto de estudo, objeto de desejo, instrumento de vingança e campo de disputa pela sua própria identidade reprimida. 

Desse modo, A Pele Que Habito pode ser interpretado como uma ocasião em que Almodóvar volta sua própria estética contra si mesmo, muito parecido com o que Pier Paolo Pasolini realizou em Salò, ou os 120 Dias de Sodoma (1975). Neste caso, o corpo, a identidade e a transformação, que frequentemente surgem em sua obra como oportunidades de reinvenção, transformam-se em ferramentas de violência. O filme questiona o que ocorre quando a habilidade de reinventar o próprio corpo deixa de ser do indivíduo e passa a ser de outra pessoa, mesmo que essa pessoa não exista de fato. É essa transição da autonomia para o controle que faz com que o filme seja uma obra tão singular na filmografia do espanhol.