Próximo ao final do ano, época de festas e união, Amanda (Cameron Diaz) descobre que foi traída pelo marido. Do outro lado do Atlântico, a britânica Iris (Kate Winslet) recebe a notícia de que seu grande amor irá se casar com outra mulher. Ambas, desoladas e desesperançosas com o amor, decidem tirar férias. Acabam se encontrando em um site de home exchange — modalidade de viagem em que duas pessoas trocam de casa. Enquanto Amanda pega um avião para o país europeu onde o sol raramente brilha, Iris compra sua passagem para a ensolarada Los Angeles.

O Amor Não Tira Férias é o filme perfeito. Não no sentido tecnicista — que nem seria um argumento válido, como se houvesse uma forma objetivamente boa ou não —, mas perfeito por ser, acima de tudo, um filme sobre a perfeição. Apesar do título, Nancy Meyers não quer falar sobre amor, mas sobre destino: o modo excepcional com o qual o destino age na vida daquelas pessoas e as guia ao encontro de suas utopias particulares.

Amanda e Iris seguem em direção ao mesmo objetivo: conciliar suas vidas profissionais e pessoais. Entretanto, cada uma delas parte de um ponto diferente; começam sua jornada em polos opostos. Uma delas é workaholic, bem-sucedida no trabalho, mas não consegue se dedicar ao amor. A outra não consegue se devotar completamente ao aspecto profissional, pois o sentimento que nutre por seu colega de trabalho afeta sua rotina. Uma ama demais, a outra de menos.

Nesse sentido, ambas buscam a conciliação perfeita, o ponto de equilíbrio. O Amor Não Tira Férias apresenta uma visão muito pura e inocente sobre essa jornada. A trajetória é completamente arbitrária, como se o ponto de chegada fosse um destino certeiro, escrito nas estrelas e lido na palma da mão. Independentemente do que ocorrer, nada impedirá as duas de chegar onde almejam. O acaso existe apenas para garantir que permanecerão na rota. De certo modo, parece até um conto de fadas encantador: as coisas vão acontecendo para elas de maneira adorável e utópica. A fada-madrinha segura em suas mãos e as guia até a carruagem-abóbora.

Parte-se de uma ótica que enxerga a perfeição em cada passo da caminhada. O mundo de Amanda e Iris é perfeito: elas encontram o homem perfeito, a casa de férias perfeita, têm o trabalho perfeito, e por aí vai. Até mesmo os percalços e os erros — como as traições — se encaixam dentro dessa lógica. São questões que não estão ali para atrapalhar a jornada, mas para garantir que elas serão encaminhadas à direção certa. Todos os “problemas” que ocorrem existem exclusivamente para se certificar de que chegarão ao lugar correto. Chega a ser lindo como tudo é perfeitamente orquestrado para oferecer uma jornada encantadora de emancipação às protagonistas. Como dito anteriormente, trata-se de uma visão muito pura da vida — que só poderia existir no cinema.

As personagens partem de pontos opostos para chegar a um destino comum e garantido. Como consequência, o filme não se foca tanto na chegada, mas no percurso. O brilho não está na carruagem-abóbora, mas nas horas que a Cinderela permanece no baile. E, aqui, essa festa é composta sumariamente de relações: interações (românticas ou não) entre personagens, que vão assumindo o papel de mentores nesse trajeto de crescimento pessoal.

Os relacionamentos se revelam de maneira fascinante. Como pontuado anteriormente, trata-se de um filme sobre perfeição — e as interações não ficam de fora disso. O modo como Amanda e Iris se relacionam com os coadjuvantes é sempre muito íntimo e natural, como amigos que se conhecem há décadas. Amor à primeira vista, mas não apenas no sentido romântico. Todos que entram na vida das protagonistas parecem nutrir, desde o início, uma grande afeição por elas. Admirar esses relacionamentos fluírem é mágico e cativante — principalmente a amizade de Iris com Arthur (Eli Wallach), um roteirista aposentado. Um tipo de magia que só é possível nas telonas do cinema, pois é perfeito demais para a vida real: amizade instantânea e paixão efervescente. Ações e reações em perfeita sincronia e harmonia. Nessa teia de aranha de relacionamentos, todos são almas gêmeas.

Sendo assim, Meyers concede ao seu filme uma forma que ativamente se esforça para permitir que esses relacionamentos desabrochem dentro do quadro. Com uma decupagem mais clássica (no sentido da decupagem majoritariamente vigente até meados da década de 1940), a câmera da diretora entrega a seus personagens o espaço necessário para que sejam livres dentro do quadro.

O Amor Não Tira Férias tem poucos planos, conectados por uma montagem invisível e escassos movimentos de câmera. Ou seja, uma câmera tímida, que não quer ser percebida. Meyers quer mostrar aquele mundo, mas não quer inserir o espectador nele — afinal, é perfeito demais para permitir que algo de fora entre naquele cosmo controlado. Ela quer apenas que se observe à distância. Distância essa que permite a liberdade dos corpos dentro do plano. A forma se esconde justamente para deixar que os relacionamentos e os personagens se soltem dentro do quadro. Relacionamentos tão puros que não podem ser afetados por nada, nem pela presença da câmera. É vital que aquelas interações tenham o espaço necessário para ocupar o filme de forma desprendida, pura e inocente.

Desse modo, Meyers é extremamente competente em despertar no espectador o encanto por aquele mundo e aquelas pessoas — auxiliada pela trilha excepcional de Hans Zimmer. Afinal, ela articula sua mise-en-scène de forma a gerar proximidade suficiente para que sejamos seduzidos por aquele universo, e distância o bastante para que os personagens tenham liberdade para florescer.

É interessante notar como, nos momentos em que a harmonia perfeita dos acontecimentos diegéticos é, de alguma maneira, abalada, o filme também se afeta e perde esse rigor formal “perfeito”. Em determinado momento, por exemplo, Graham (Jude Law) e Amanda discutem seus sentimentos um pelo outro. É uma cena trágica, que permeia sentimentos não correspondidos. A cabeça de Amanda, portanto, está confusa, perdida e caótica. Por sua vez, a câmera se comporta do mesmo modo: primeiro, abraça a personagem em um plano médio; em seguida, aproxima-se até um plano fechado; conforme se move, executa uma rotação de 360º. Longe da harmonia clássica do restante da decupagem, mas sincronizada com um momento em que a psique da protagonista também se afasta da perfeição do conto de fadas.

Em suma, O Amor Não Tira Férias é uma utopia infantil e inocente — no melhor dos sentidos possíveis. Um filme que consegue ser absurdamente humano ao mesmo tempo em que é mágico. Duas jornadas de emancipação e autonomia, partindo de origens opostas, mas em direção à mesma fantasia perfeita. Trajetos harmonizados em uma lógica que transborda encanto em cada fala e cada ação. Duas mulheres que surgem com “Era uma vez” e desaparecem com “Foram felizes para sempre”.