Saindo do Armário não se trata sobre descoberta sexual, mas de redescoberta. Uma revisitação íntima de conflitos passados como ferramenta de moldar o seu eu presente. O filme dedica uma parte de seu tempo para mostrar o romance do protagonista com uma mulher de forma mais arrastada como uma maneira de acostumar o público a esse relacionamento. A escolha de deixar a obra fluir focando na introspecção do personagem já dá indícios bastantes sutis de que ele se sente um pouco distante daquela situação, refletindo como a orientação sexual das pessoas não se trata de escolha e não há o que fazer para mudar isso e que, uma hora ou outra, esse lado irá emergir.

E aqui, essa emersão surge do acaso, sem preparação ou aviso prévio, quando o personagem é puxado para uma balada LGBT+, a qual impulsiona gatilhos que novamente despertam atrações homoafetivas e induz a aparição da informação que muda todo o sentido do filme: seu antigo caso com um amigo, interrompido por desaprovação dos pais.

Apesar de ser ponto crucial dentro da narrativa, a aleatoriedade com que esse acontecimento é jogado no enredo é uma escolha narrativa muito acertada, não só no contexto da obra, mas também da sua aproximação com a realidade e com a inevitabilidade dos acontecimentos. No caso do filme, é exatamente o que acontece: ele não pode evitar o reencontro com seu lado íntimo e reprimido por tantos anos devido às circunstâncias externas, que ainda continuam presentes, agora como um dilema moral de qual caminho escolher. Quando ele tenta voltar atrás, paga um preço alto, o que leva o longa a destrinchar mais uma de suas camadas: seu caráter coletivo.

E é aí que está a melhor parte do filme. Conforme vai se redescobrindo e se tornando uma pessoa amargurada e temerosa, ele acaba se encontrando com algumas pessoas para desabafar. Em um desses desabafos, tem contato com relatos de vida, e um deles mostra uma situação pior que a dele. O caráter coletivo das situações em comum que pessoas LGBT+ como ele passam, de uma forma ou outra, o faz enxergar como ele não está sozinho e isso o conforta.

Portanto, não é uma obra de romance e nem se propõe a ser. É um estudo de autoafirmação da própria identidade de si e de muitos outros. Reflete como as inseguranças e os medos de ser você mesmo, acabam diminuindo de certa forma quando você se dá conta de que há muitos outros como você que querem simplesmente viver em paz. O filme entrega um final melancólico no qual, mesmo solitário, ele se sente em paz consigo mesmo quando se dá conta de que seus sentimentos negativos relacionados a sua homossexualidade não devem ser uma forma de autodestruição. Ser feliz consigo mesmo é muito bom, mas compartilhar a felicidade com nossos iguais é ainda melhor.