Desde que Bohemian Rhapsody (Singer, 2018) fez muito sucesso com o público (vulgo dinheiro) e até venceu alguns prêmios por aí, o gênero de cinebiografias de figuras da música está lotado de produções feitas de qualquer jeito para embarcar neste trem. De 2018 até agora tivemos retratadas no cinema as histórias de Amy Winehouse, Bob Marley, Whitney Houston, Bob Dylan, Elton John, para citar algumas. E chegou até por aqui, com os filmes de Mamonas Assassinas e Claudinho e Bochecha sendo os mais notórios. Por conta desse mercado saturado de mediocridade, com algumas poucas ressalvas, era de se esperar que mais um longa sobre um cantor britânico não tão famoso por aqui fosse uma bomba. Mas que bela surpresa é Better Man: A História de Robbie Williams.

A começar pelo elefante na sala, ou melhor, macaco, o musical abusa da criatividade para mostrar a vida, talvez até clichê, do cantor – da infância, à ascensão meteórica, até a calmaria pós reabilitação. Aqui Robbie Williams é representado por um macaco, que, segundo ele mesmo, era como ele se via se apresentando para as pessoas. É um recurso que parece estranho em um primeiro momento, porém não demora muito até você esquecer que é um personagem completamente digital interagindo com humanos, que em momento algum tomam conhecimento de que é um chimpanzé humanoide ali. Chegou uma hora em que já conseguia ver o próprio Robbie Williams por trás do macaco, principalmente pela maneira como ele se movimenta e pela expressividade dos olhos — mais uma vez a Weta fazendo um trabalho impecável nesse tipo de personagem. O diretor também compreende muito bem como encaixar todos os efeitos especiais nas cenas, de maneiras que o imenso esforço da produção para mesclar real e digital não seja aparente, e assim não tire a emoção dos personagens ou crie um vale da estranheza.

Para além do artifício do macaco, o filme é um belo musical jukebox, com as canções muito bem encaixadas em momentos chaves da trama – que foram todas regravadas pelo cantor, com algumas colaborações, para capturar melhor o sentimento das cenas. Além disso, Robbie Williams é co-autor de sua biografia (praticamente uma autobiografia), atuando como narrador e apresentando um personagem muito interessante. Segundo o próprio, ele é um garoto da periferia que sempre quis ser famoso e acreditou que tinha algo de especial, conseguiu um enorme sucesso ainda muito jovem, e com isso teve que lutar contra uma depressão incapacitante. A saúde mental, aliás, é ilustrada aqui de uma forma muito inteligente, com os “impostores” na plateia, sendo representados por outras formas dele mesmo e culminando em uma luta literal contra os próprios demônios.

A direção de Michael Gracey está mais solta do que no seu musical anterior, o competente Rei do Show (2017) com números musicais bem fluidos e criativos. A cena da música Rock DJ, por exemplo, que conta sobre o auge do Take That, a boy band da qual Robbie Williams fez parte por cinco anos, é um plano sequência extremamente bem coreografado, que passeia pelas ruas com muitas mudanças de cenários e figurinos da banda. Mas a direção também funciona em momentos mais calmos, como na canção She’s the One, que aqui é um dueto e retrata o início do relacionamento do cantor com Nicole Appleton, da girl band All Saints; ou no momento em que toca Angels, talvez o maior sucesso de Robbie Williams. 

Contudo, a comparação com Rocketman (Fletcher, 2019), a cinebiografia musical de Elton John, é inevitável quando vemos mais um cantor britânico criado pela mãe e avó, com sucesso meteórico e questões com entorpecentes, que afasta todos os amigos e tem que ser internado, quase destruindo a própria carreira. Por outro lado, este, pelo formato mais autobiográfico – e bem… pelo macaco – é mais pessoal e sarcástico do que o outro filme, embora ambos tenham a mesma qualidade em questão de narrativa, de números musicais e de retratar suas épocas (os anos 1970 e os anos 1990/2000 respectivamente).

Devo dizer que já conhecia bastante sobre a carreira (e até vida pessoal) do Robbie Williams, então tenho esse viés de quem viveu intensamente a época do auge das boy e girl bands do Reino Unido. Mas é um viés que poderia facilitar uma decepção também, e está longe de ser o caso aqui. Better Man é, assim como Rocketman, aliás, uma excelente biografia, um musical muito bem estruturado; tem uma narrativa muito atraente e fácil de se identificar, mesmo para quem não conhece o artista. E as músicas são sensacionais.