Foi-se o tempo em que o entendimento era de que sequências são sempre inferiores aos filmes originais. Os exemplos são inúmeros, ainda mais quando a continuação surge depois de muitos anos, como Top Gun: Maverick (Kosinski, 2022) ou Mad Max: Estrada da Fúria (Miller, 2015). Ambos pegam personagens e principalmente a essência dos anteriores e elevam à décima potência, com cenas de ação monumentais. Mas calma, O Contador 2 não chega a ser uma obra prima como as citadas aqui, porém é deveras impressionante o salto de qualidade em comparação ao primeiro longa, seja pelo desenvolvimento da narrativa ou pela construção das cenas de ação.

Em O Contador, Christian Wolff (Ben Affleck) é um profissional que trabalha lavando dinheiro para criminosos o qual, por diversas circunstâncias, acaba tendo que se lidar pessoas que querem matá-lo. Todavia, o diferencial do personagem é ele ser uma pessoa autista e por isso (na lógica do filme) é excepcional em matemática e em estabelecer padrões, além disso foi treinado intensivamente em combate por um pai obcecado em ter filhos que soubessem se defender. Dessa forma, Wolff é apresentado como super inteligente e habilidoso, mas que não consegue lidar com relações interpessoais. Agora, te pergunto, qual é a diferença disso para outros vários personagens da cultura pop? Neste primeiro filme ele me lembrou bastante do protagonista de Drive (Refn, 2011), pela quietude e violência,  e também o próprio Batman feito pelo ator, seja pela postura, olhar e jeito de falar.

Tudo isso para dizer que, no primeiro filme, o personagem é semelhante a vários outros, o desenvolvimento da trama segue o que você espera de outros thrillers do gênero, nada de mais, só que tenta se levar muito a sério especialmente quando trata a questão do autismo. Parece que a produção acredita que este é o grande diferencial da narrativa: desta vez o herói de ação estoico tem diagnóstico. Porém, todos os estereótipos e clichês sobre sintomas e atitudes de pessoas autistas estão lá, como a genialidade, a inabilidade de se conectar com outras pessoas e até auto-agressão. Portanto a representatividade buscada pelo filme, e tratada como algo extremamente relevante, é vazia e desprovida de nuance.

Já em O Contador 2, o autismo ainda é um tema importante, no entanto a representação é tão absurda que dá a volta e fica divertido (Ben Affleck até parece ter entendido melhor o personagem e deixado o Bruce Wayne para trás). O protagonista, desta vez, tem simplesmente uma equipe de inteligência (hackers) composta de adolescentes no espectro para auxiliá-lo nas missões. Além disso, tem algumas cenas pontuais em que ele usa as habilidades de forma inusitada, como quando ele aprende um passinho de dança, por reconhecer facilmente os padrões. Então, embora a neurodivergência ainda seja tratada como um super poder pela produção, é de uma forma mais leve, boba até, e menos séria que no anterior – aqui vale um adendo que nenhum dos filmes fazem piadas com os sintomas ou com o autismo em si.

Assim, chegou a hora de falar do verdadeiro destaque desta sequência que é Jon Bernthal. No momento em que o longa se desprende da burocracia e das explicações excessivas do primeiro e pode focar em construir um mistério mais envolvente, com mais ação e humor, é quando ele brilha. Sem contar que a ótima dinâmica entre o personagem dele e de Ben Affleck, onde um provoca o outro constantemente, mas também há momentos quietos que demonstram um enorme carinho e cumplicidade entre os dois. Bernthal também se sobressai, na comédia e canastrice, em momentos sozinho, como na cena em que ele tenta adotar um cãozinho e não consegue.

O filme também deixa uma brecha para continuações, introduzindo uma assassina misteriosa que poderá funcionar como antagonista ou aliada para Christian Wolff. Alguns dos melhores embates são com ela, como na cena inicial e na luta dentro da casa. Porém tenho ressalvas sobre as motivações da personagem, pois novamente colocaram na conta de uma neurodivergência – dessa vez a síndrome de Savant, em que o indivíduo apresenta habilidades excepcionais em uma área muito específica.

O Contador 2 ainda é vítima de estereótipos, mas o humor, que não estava presente no primeiro filme, compensa bastante e entretém. Ademais, as cenas de ação são bem resolvidas, em especial a sequência inicial chocante e a final, a qual lembra um filme de guerra, e há tensão suficiente para manter o mistério sobre como irá chegar na resolução final.