O primeiro longa do diretor, também roteirista e produtor, Isaiah Saxon, A Lenda de Ochi é uma história original sobre os moradores de uma ilha fria e inóspita que têm medo de uma espécie de criaturas violentas chamada Ochi. A menina Yuri (Helena Zengel)  foi ensinada a atacar ou fugir desses bichos — os quais ela nunca chegou a ver pessoalmente — e a participar de um toque de recolher durante a noite, no entanto ao verificar as armadilhas colocadas pelo pai (Willem Dafoe) ela encontra um filhote ferido e resolve ajudá-lo.

Com essa premissa que lembra muito ET – O Extraterrestre (Spielberg, 1982) ou Como Treinar o Seu Dragão (Blois, Sanders 2010), o filme tem uma aura de fantasia dos anos 1980, aqueles como História Sem Fim (Petersen, 1984), A Lenda (Scott, 1985) ou Willow (Howard, 1988) a criaturinha inclusive parece um Mogwai, de Gremlins (Dante, 1984). Contribui para isso que os bichinhos Ochi são animatrônicos e marionetes, o que dá um aspecto “vintage” para a produção, ao mesmo tempo que trás mais vida para os animais visto que os atores podem interagir fisicamente e as reações dos bichos são imediatas. Por mais que a tecnologia tenha se aprimorado com o motion capture e outras técnicas de animação em CGI, ainda é notável a diferença de ter um boneco realista e expressivo no set. Além disso, o próprio diretor criou diversas pinturas para a técnica de matte painting, que incorpora os quadros estáticos à filmagem, economizando nos efeitos especiais e adicionando ao aspecto mais tradicional do filme.

O longa ainda consegue ter uma carinha moderna e típica do estúdio que o distribui, a A24, com as belas paisagens frias, enevoadas e acinzentadas das montanhas Cárpatos, na Romênia, local em que foram filmadas as cenas externas. Mesmo com algumas cores se destacando, em especial o amarelo nas luzes e no casaco da menina, a paleta de cores ainda é, predominantemente, aquele cinza azulado de tantas produções por aí. Mas aqui essa falta de cores contrastantes soma à ambientação de fantasia em um lugar isolado e frio, bem como ajuda a ressaltar a adição de mais cores na parte final e a destacar os animais.

Para além dos aspectos visuais, a narrativa se mantém simples e derivativa, mas ainda traz um ar etéreo e aconchegante que as fantasias antigas tinham também. A única questão talvez seja a falta de conexão entre algumas cenas e informações jogadas, especialmente no início do filme. Dessa forma a construção de mundo fica confusa sobre o papel dos Ochi, bem como a relação entre os personagens parece superficial e cai um pouco num clichê de falta de comunicação e abandono parental. Por outro lado, é um acerto do filme focar em um núcleo enxuto de humanos para que o bichinho possa brilhar.

A Lenda de Ochi é um respiro de originalidade em um mar de adaptações e continuações, especialmente voltados para o público infanto-juvenil. Ainda que beba muito da fonte de outras obras, é diferente o suficiente para se destacar por ele mesmo na fantasia reconfortante e na fofura do filhotinho de Ochi.