Aguirre, a Cólera dos Deuses é um daqueles filmes transcendentais que, quando acabam, o espírito demora um pouco para voltar para o corpo, e a partir daí que o cérebro começa a processar o que diabos você acabou de ver. Filmado com apenas uma câmera e em ordem cronológica, este grande feito de Werner Herzog encanta e surpreende não somente pelo que está em tela, mas também pelas inúmeras anedotas malucas de bastidores.
Levemente baseado nas histórias de conquistadores espanhóis que buscavam pela cidade mítica de El Dorado, o filme acompanha Pizarro (Alejandro Repullés) e sua enorme comitiva pelas matas fechadas do Peru. Ao chegar à beira de um rio, o comandante decide mandar um grupo seguir o caminho pelas águas e, neste destacamento, estão Lope de Aguirre (Klaus Kinski) e o missionário Gaspar de Carvajal (Del Negro), entre dezenas de outros, sob o comando de Pedro de Ursúa (Ruy Guerra). Porém, a viagem será cheia de desafios, das correntezas aos ratos, ou de traições aos ataques de nativos. Dessa forma, o grupo entra cada vez mais em um estupor catatônico, sucumbindo às águas e à floresta.
Herzog teve a ideia para o filme ao ler sobre a história do conquistador Lope de Aguirre, conhecido também como “Cólera dos Deuses”, que, segundo os relatos, estava em uma expedição em busca de El Dorado com Pedro de Ursúa, e usurpou a liderança da missão. O verdadeiro Gaspar de Carvajal, por sua vez, estava em outra expedição que explorou o local 20 anos antes da de Aguirre, mas o missionário ficou conhecido por seus escritos sobre o que viu durante esta viagem, e o diretor também se inspirou nesses relatos para construir a narrativa do filme.
A precisão histórica não foi tanto uma preocupação da produção, mas o ambiente e a encenação remetem bem ao imaginário do que os espanhóis provavelmente passaram naquela mata úmida e desconhecida no século XVI. Tanto é que, pela maneira como Herzog filma, parece que estamos junto com o grupo, mas com um distanciamento seguro, como se participássemos de um documentário sobre essa jornada.
E, de certa forma, o filme é quase um documentário mesmo — inclusive com poucas cenas filmadas mais de uma vez e um roteiro que permitia improvisação. Além disso, a equipe teve que viajar por dentro da floresta, com chuva e neblina, e por terrenos acidentados; dormir em acampamentos precários, inclusive nas jangadas, com pouquíssimos recursos, assim como na ficção. Várias das situações pelas quais os personagens passam, os atores e membros da equipe também passaram na vida real. Um exemplo do que ocorreu no longa e na realidade: em um momento, durantes as filmagens, o nível do rio subiu à noite e os barcos foram levados pela correnteza; Herzog, então, incorporou essa situação ao filme.
A trilha sonora, no entanto, quebra um pouco a ideia de realismo que o ambiente traz; muitas vezes ressignificando a encenação para um grande devaneio sobre poder, ganância e esperança. A música é etérea, sublime, hipnótica; logo na primeira cena, com a montanha escondida pela neblina, estabelece o tom do filme. Isso combina muito com a atuação de Klaus Kinski, que, conhecido por ser explosivo e caótico, foi domado pelo diretor para apresentar uma loucura quieta, expressiva e aterrorizante.
Aguirre, a Cólera dos Deuses é fascinante por criar essa atmosfera de sonho, mas também documental, sobre um grupo malfadado em um lugar hostil buscando algo que não existe. E, se por um lado queremos ver qual será o destino de cada um daqueles desafortunados, também existe a experiência catártica que é ver colonizador se dando mal.