Desde os primeiros anúncios sobre esta nova adaptação do clássico de Emily Brontë que o filme está envolto em polêmicas, seja pelo apagamento das questões raciais, cruciais na narrativa do livro, seja pelos visuais anacrônicos de figurinos e ambientes, e até um receio sobre a presença de um erotismo que também não existe no material original. Fato é que “O Morro dos Ventos Uivantes” – com as aspas usadas talvez como uma forma de amenizar os que buscam uma fidelidade ao clássico – é uma releitura despreocupada em reconstituir a época ou em manter as mesmas estruturas e características do romance do século XIX.
Acredito que a diretora usou de base apenas o cenário gótico e o desejo (ou amor? Ou obsessão?) impossível da narrativa original para criar em cima disso um roteiro interessado em explorar mais um romance envolto em conflito de classes junto com fetiches sexuais envolvendo relações de poder. Portanto, o filme é bastante focado em Cathy (Margot Robbie), uma moça de família aristocrata falida, que mora com o pai, uma dama de companhia e poucos empregados na propriedade Wuthering Heights e anseia por casar com alguém rico, usando de seu sobrenome de valor, para viver no luxo. Eis que ela, ainda criança, ganha um bicho de estimação e companheiro de aventuras que é Heathcliff (Jacob Elordi), um menino que seu pai pega para criar e ajudar nos trabalhos da casa.
A relação de intimidade estabelecida desde a infância persiste com o passar do tempo, sendo Cathy impulsiva e arrogante e Heathcliff estoico e passivo, e dessa forma mantém um desequilíbrio de poder entre os dois, criando tensão sexual. Ele é praticamente um guarda-costas dela, enquanto ela é a dominadora que gosta da atenção e proteção que ele provê. Por isso, assim que Cathy consegue a mesma coisa vinda de um homem com posses, ela fica dividida em aceitar um casamento confortável, porém sem amor, ou uma paixão sem perspectivas – então, sendo a mulher racional que é, ela escolhe a estabilidade. Heathcliff então vai embora e Cathy percebe que não pode ter tudo.
O erotismo prometido pela campanha de marketing do filme ficou de fora do produto final. Margot e Jacob tem uma boa química quando estão discutindo, mas não convencem como um par romântico sofrido e sensual; não há tesão, paixão ou angústia pela separação nos rostos deles ou no jeito com que se tocam. As cenas do casal, em sua maioria, são filmadas como os maiores clichês do gênero – levantar a saia, meter uma vez, gemido de boca aberta com a cabeça virada para trás, por exemplo – e com poucos momentos de sedução ou até de carinho e intimidade. Não tem nem a ânsia e o desespero de um romance proibido como o do livro e nem a safadeza e ousadia de um Saltburn (2023), filme anterior da diretora. Para não dizer que é tudo descartável, a atmosfera nublada e soturna dos arredores de Wuthering Heights é perfeita para dar a sensação de desolação de um romance gótico e, no caso do erótico, tem uma boa sequência sensual e sutil que termina com Heathcliff levantando a Cathy pela amarração do corselet (que pela força da ação, lembrou-me da Criatura de Frankenstein vivida pelo mesmo ator no ano passado).
Para além do romance e erotismo, outro tema abordado pela diretora é o conflito de classes. Essa é, afinal, a motivação principal para Cathy escolher se casar com Edgar (Shazad Latif) e ir morar na majestosa propriedade da família Linton, vizinha de Wuthering Heights. A diferença entre a decadência e a suntuosidade é muito marcada pelo design de produção, sendo a casa da família de Cathy mais próxima a um realismo histórico, feita de pedras cinzentas e madeira, pouco iluminada e apertada, enquanto a mansão de Edgar parece um museu de arte contemporânea. É tudo muito grandioso, colorido, tem uma certa estranheza e fantasia, mas que também é vazio, isolado e frio – me lembrou a estética das obras de Guillermo del Toro, com referências a filmes de fantasia, como versões de A Bela e a Fera e também Doctor Who. Os figurinos também são todos deslumbrantes, misturando o histórico com alta costura contemporânea, para reforçar a diferença do conjunto “Feira Medieval” que Cathy vestia antes.
Heathcliff volta endinheirado depois de ser descartado por Cathy, com ideia de vingança. É então que, apesar de todo luxo e poder, Edgar e sua irmã Isabella (Alison Oliver) acabam sendo vítimas inocentes dos caprichos dos protagonistas: o primeiro preso em um casamento sem amor e a outra manipulada por Heathcliff (vale notar que essa cena é mais libidinosa do que todas as interações do casal principal). Assim, o conflito de classes nem chega a ter uma tensão real, apenas estabelecendo a dicotomia entre duas partes que não se enfrentam realmente na narrativa.
O filme, portanto, fica perdido nas intenções já que não consegue desenvolver bem nenhum dos temas que parece tratar. Ainda nesse viés, propõe, de início, um tom mais sóbrio de romance histórico e, em seguida, muda para um lúdico fantasioso estilizado (bem mais interessante) que não conversa com a primeira parte. Pensei até que poderia ser um exercício de estudo de personagem, associando o design de produção ao estado mental da protagonista, uma fuga da realidade – como na cena com a pilha de garrafas vazias. E há elementos visuais usados para isso, como a cor vermelha nos vestidos de Cathy quando ela está apaixonada e o branco e azulado quando ela está confortável, mas infeliz.
Por fim, não tenho apego a obra original para me incomodar com as mudanças no texto, mas também acho válido ressaltar a questão levantada sobre a inversão de raça de Heathcliff e Edgar e também o total apagamento de qualquer menção sobre preconceito racial. Pessoas não brancas já tem pouquíssimo protagonismo, ainda mais em se tratando de literatura clássica ocidental. É injusto (e racista) que tirem o pouco que há e também não acho que compensa o fato de ter coadjuvantes não brancos, como é o caso de Edgar. Porém, o pior é dizer em entrevistas que “imaginava o personagem assim”, sendo que a descrição dele está lá no livro e é um dos conflitos centrais da trama – e ainda por cima entrega uma fanfic “meia-boca”.
É um filme bem bonito de se ver, ainda mais para alguém como eu que tem interesse particular em moda e artes plásticas, mas a narrativa bagunçada e cheia de clichês – tem até a associação entre amarrar o corselet antes do casamento representando prisão – tira do filme o aspecto humano, as temáticas interessantes vindas do original e os anseios românticos. Isso sem acrescentar algo de novo, como seria o caso do erotismo ou até de uma trilha moderninha, assinada pela Charlie XCX (outra que prometeu e não apareceu muito). No fim a minha empolgação inicial acabou sendo levada com os ventos.
PHNewJili is pretty good. Games are fun, and I like their mobile version. It’s well optimized. Maybe a few more promotions would be nice, but I like what I see. phnewjili
G’day, folks. Bdbigbaazi’s on the scene. A pretty middle of the road experience. It performs as I expect. Check out bdbigbaazi for yourself.
Hello! Betonsoftcasinos provides reasonable gambling experiences. If you need reasonable gambling experiences, you could try betonsoftcasinos.