Esse filme é um daqueles que mostram como o cinema pode ser usado para aproximar as pessoas. Quem nunca foi vítima de um sistema criado para moer o trabalhador, premiar os espertos; onde a desesperança reina, visto que, aqueles que podem ajudar, são agentes de uma elite dominante. A história de Aya (Fatma Sfar) começa em uma cidade do interior da Tunísia, onde ela mora com os pais, trabalha em um hotel e tem um caso com o chefe. Ela sonha em morar na capital, mas não tem dinheiro para a mudança; sustenta os pais e acredita em falsas promessas do amante. Eis que um acidente muda completamente o rumo da história, e Aya ganha uma oportunidade única de mudar de vida. O problema é que a vida não é um morango, e nada será fácil para a moça.

Em uma história cheia de reviravoltas, Aya vai tentar a qualquer custo viver sua tão sonhada liberdade de forma honesta, mesmo com as confusões criadas pelo fato de ela confiar em pessoas erradas, que a colocam como principal testemunha de um crime envolvendo poderosos e a polícia. A narrativa tem um ritmo constante, em que as questões vão escalonando, até chegar no ponto em que a tensão é tão pungente que parece que a resolução será catártica. No entanto, o aspecto realista e crítico do filme permanece ao longo de toda a duração, incluindo o final. A protagonista é vítima e ingênua, mas em momento nenhum a narrativa diminui a inteligência da moça para desencadear as situações que ela precisará resolver: tudo é muito natural e plausível.

A fotografia é bonita ao mostrar as paisagens do país, ressaltando o contraste da capital moderna e badalada com o interior desértico; além dos momentos íntimos em que Aya reflete sobre suas escolhas — Fatma Sfar, aliás, tem olhos extremamente expressivos. Apesar de estar calcada em um realismo cru, permite-se por um momento assombroso demonstrar o que a protagonista vê sob efeito de entorpecentes em uma cena psicodélica e soturna.

É importante mencionar, no entanto, o quão questionável é o fato de que, apesar de ser bastante empática com a sua protagonista, a direção escolha mostrar uma cena de estupro bem desnecessária para passar a mensagem de humilhação (e cafetinagem) que sugere (por mais que não seja apelativa). Não é um demérito somente do filme, visto que ele está inserido nessa cultura universal de que a violência contra a mulher só pode ser expressada visualmente por meio de estupro; como se outras tantas instâncias de agressão não fossem o suficiente. Porém, ainda assim é desgostoso que a cena esteja ali quando, no fim das contas, o estupro de Aya não passa de um detalhe que sequer é mencionado novamente na narrativa.

Por fim, o título em português não traduz exatamente quem é Aya; afinal, ela existe em diversas mulheres, sendo quase um arquétipo da mulher trabalhadora e sonhadora que busca uma vida melhor. Mesmo no escopo do filme, A Mulher que Nunca Existiu existe; com vários nomes, influenciando a vida de várias pessoas ao redor. O título original, Aïcha (que é um nome próprio), dentro do contexto narrativo, expressa melhor a ânsia por libertação de uma vida que, até aquele momento, trouxe, praticamente, apenas sofrimento e desespero para a protagonista.