É ruim perder o timing da estreia de um filme porque todos os colegas já comentaram sobre ele, muitos inclusive com o mesmo pensamento que eu, então parece que não há mais nada a falar sobre. Porém, entendendo que parte da graça de ler várias críticas e comentários é ver a multiplicidade de opiniões e personalidades, resolvi escrever aqui também.

Em um primeiro momento eu fiquei muito comovida com este segundo longa da diretora Celine Song pois achei uma história muito próxima da minha realidade e das minhas amigas solteiras 30+. Filmes românticos muitas vezes são pautados em situações muito extremas ou fantasiosas para primeiros encontros e desenvolvimento da relação dos personagens (o que também faz parte e tem seu valor), mas este é bem embasado na realidade e por isso cria uma empatia maior – que aliás também se faz presente no filme anterior da diretora, o competente Vidas Passadas (2023). Isso é por um lado um destaque e por outro um problema.

A protagonista Lucy Mason (Dakota Johnson) trabalha como casamenteira em uma empresa chamada Adore (uma espécie de Tinder personalizado para ricos) e está comemorando o sucesso de mais um matrimônio advindo de seu trabalho. No entanto, ela mesma não acredita mais que vai encontrar amor na vida e tem uma visão pragmática de casar com alguém que tenha dinheiro suficiente para proporcionar segurança financeira para ela. Como é costumeiro nesse tipo de romance, logo Lucy ficará dividida entre o homem perfeito rico, Harry Castillo (Pedro Pascal), e o outro homem igualmente atraente, mas pobre, o ex-namorado aspirante a ator, John Finch (Chris Evans).

A questão financeira será o ponto central de discussão do longa, tendo a própria diretora dito que queria conversar sobre como isso (capitalismo) afeta nossos afetos nos dias de hoje. A diferença fundamental entre os dois pretendentes é essa, afinal além de lindos, também são educados, cuidadosos e carinhosos com Lucy, por outro lado, com um deles ela tem uma história pregressa que irá influenciar também na decisão. Dessa forma, a questão levantada é: vale a pena passar por perrengue financeiro em uma relação se ainda há amor e cuidado entre as partes? Mas não é esse filme que vemos.

Apesar desta fundação, a narrativa se desenrola com um desinteresse total seja para aprofundar esse aspecto ou seja para entregar um belo romance. A passividade de Lucy em relação a ambos os pretendentes imagino que era para ser lida como pragmatismo, mas ela reforça a todo momento que o simples ato de amar é fundamental na equação, o que também é ressaltado na hipocrisia que ela apresenta para as clientes tentando determinar com precisão cada pareamento feito. Tudo culmina quando é confrontada pela cliente Sophie (Zoë Winters), que é considerada praticamente um caso perdido e termina sendo abusada em um encontro promovido pela casamenteira. Neste momento vemos que não somente o sistema é falho e inseguro para as mulheres, como também o quanto a protagonista é também parte dele e iludida por ele, o que finalmente dá humanidade para Lucy, porém infelizmente cai no estereótipo do sofrimento de uma mulher ser usado para desenvolver outro personagem.

Assim, a escolha narrativa de voltar o foco para a trama romântica, de forma totalmente anticlimática depois dessa questão com Sophie, coloca o filme de volta dentro de clichês do gênero, como fugir com o pretendente ou de volta dentro de clichês do gênero, como fugir com o pretendente ou entrar de penetra em uma festa. O problema é que os personagens seguem todos tratando os encontros de forma blasé; todos os três são desinteressados e ninguém está muito disposto a ir atrás dos próprios desejos, tirando também o nosso interesse como espectador de acompanhar a história. Nem Lucy, que pelo menos tem mais autonomia e toma mais decisões sozinha do que a média das protagonistas de romance, parece ter vontades muito fortes; estando entediada na maior parte do tempo. Isso é uma característica realista, que cria uma personagem forte, diferente e também falha, mas cai por terra quando o que mais desperta sentimentos nela é a ética profissional e isto é tratado apenas como um pequeno desvio do principal que é escolher entre dois homens.

O recurso de se usar três protagonistas atraentes, com uma mulher tendo que escolher entre um mais pobre e um mais rico, ou um mais “imaturo” e outro “que trabalha”, não é novo. Às vezes os filmes colocam características indefensáveis em um, para facilitar a escolha da moça, mas em vários outros ambos estão dentro da cartilha de atraente e “gente boa” como aqui – aliás, fazendo um parêntese aqui que acho pertinente: achei bem curioso que em Amores Materialistas a pior característica física que um homem pode ter é ser baixinho e para a mulher é ter mais de 30 anos (mais uma fantasia). Com isso, o que seria o diferencial do filme em relação a esses outros, que é falar mais explicitamente sobre como o dinheiro afeta relacionamentos, fica em segundo plano e, no fim, apela não para o desenvolvimento dos personagens, suas relações ou para um caminho coerente com o discurso, mas vai para o clichê, o que é uma pena.