Eu tenho a lembrança de infância de ver o Locomia em algum lugar, provavelmente no programa da Xuxa, e achar incríveis as roupas coloridas com ombreiras gigantes, sapatos pontiagudos e principalmente a coreografia hipnótica com aqueles leques enormes. Achava, inclusive, que muita gente que viveu a televisão da década de 1990 sabia quem era o Locomia também, o que não é verdade. Apesar do sucesso estrondoso do grupo espanhol, principalmente na Europa e América Latina, no fim da década de 1980 e início da década seguinte, parece que as canções e apresentações deles ficaram presas neste pequeno espaço-tempo maluco. Eis que uma minissérie documental foi lançada em 2022 resgatando a história do grupo e, surfando nessa onda, a cinebiografia Disco, Ibiza, Locomia foi lançada em 2024 na Netflix.

O filme parte de uma audiência de conciliação entre o empresário e os ex-membros do Locomia para contar a história em flashback de tudo o que aconteceu até aquele momento. É então que a narrativa segue Xavi Font (Jaime Lorente), o criador do grupo, a partir do desejo dele de sair da casa da família cheia de irmãos a fim de buscar o sonho de ser estilista e de ter liberdade para viver sua sexualidade. Com isso, a história do Locomia, especialmente na sua concepção, passa a se confundir com a vivência comum no meio LGBT+ de encontrar acolhimento com outros iguais e assim construir uma nova ideia de família.

Não demora para a “casa Locomia” (o termo “casa” aqui entendido tanto como lugar físico como uma “família” LGBT+) conseguir o que almejava: um espaço para se apresentar na prestigiada boate Ku, em Ibiza. E lá os 16 integrantes conseguem a visibilidade que queriam, com os figurinos assinados por Xavi e Lurdes Iribar (Blanca Suárez) e as coreografias com leques, que seriam a marca registrada do grupo. Aqui o filme utiliza uma linguagem mais lúdica para retratar a passagem do tempo e como foi construída a conexão entre os integrantes, com uma montagem que remete a números de dança em um musical. E também não desvia de temas polêmicos como orgias e uso desenfreado de drogas – tudo abordado com a maior naturalidade, parte do cotidiano.

Porém, então, durante uma apresentação na boate para o aniversário de Freddie Mercury, o produtor musical José Luis Gil (Alberto Ammann) tem a ideia de montar um conjunto de música pop eletrônica com algumas daquelas pessoas. Assim, a narrativa volta para os moldes mais tradicionais de uma cinebiografia, com uma estética mais novelesca que segue a história da ascensão e queda do Locomia.

O filme é muito bem-humorado, até pela maluquice que foi a curta trajetória do grupo: em uma sequência divertida a edição rápida mostra que nenhum dos cinco escolhidos inicialmente sabia cantar ou dançar (para além do que faziam na boate), resultando no empresário ter que gravar os vocais para o primeiro single. Além disso, consegue equilibrar com um bom melodrama sobre homofobia e aceitação – o Locomia, apesar de ser formado essencialmente por homens gays, foi proibido de demonstrar sua sexualidade.

Por outro lado, é uma pena que apesar de um início narrativamente instigante, sobre o que aconteceu até chegar na audiência, e visualmente fluido, atraente e colorido quando apresenta a construção do grupo, o filme caia no genérico em ambos os aspectos a partir do lançamento do Locomia para o mundo. A narrativa também deixa de lado questões psicológicas dos membros, descontentes por terem que viver uma mentira, para focar mais nos problemas judiciais que viriam a enfrentar.

É triste, pois o grupo ficou conhecido (e chamou a atenção de uma pequena Paolinha) justamente pelo visual glamuroso e extravagante, e a coreografia com os leques sincronizados com a batida marcada das músicas – que, aliás, são pouco utilizadas no filme –  e acaba sendo vítima da padrão cinebiografia. Ainda assim fico feliz que a história inusitada do Locomia tenha sido resgatada e finalmente possa ser assumidamente gay.