Terror em Silent Hill: Regresso para o Inferno (2026), dirigido por Christophe Gans se sai muito bem na maneira como ilustra o espaço das cenas: sempre com uma decupagem que se movimenta muito, usa diversos ângulos, etc. Todo esse cuidado com a maneira de filmar melhora a percepção sobre a ambientação do universo e a caracterização dos personagens – os elementos de Silent Hill que Gans mais dominou desde a primeira adaptação da franquia, Terror em Silent Hill (2006), também dirigida por ele.
James Sunderland (Jeremy Irvine) é um rapaz que sofre com o luto por sua ex-companheira Mary Crane (Hannah Emily Anderson), que morreu pouco depois de ele ir embora da casa em que viviam em Silent Hill (antes de se tornar uma cidade fantasma). James, em um estado de depressão e alcoolismo notáveis, num certo dia percebe uma carta de Mary no chão da sala de casa onde ela convida ele para se encontrarem “no nosso lugar”. Logo que lê, James subitamente pega seu carro e parte para Silent Hill sem nenhuma ideia de como sua amada, falecida a tantos anos, poderia estar esperando ele lá.
A coisa mais legal de Silent Hill 2 (2001) é a densidade psicológica e o peso melancólico da narrativa. Quando James chega na cidade, o jogo constrói tudo: pessoas, a ordem dos cenários e até mesmo os principais inimigos como as Enfermeiras e o Cabeça de Pirâmide, com a intenção de ser um reflexo simbólico direto sobre o que aconteceu entre ele e Mary. O diretor encena bem toda essa vibe melancólica, depressiva e apocalíptica que vem do jogo e que, na minha visão, já tinha sido bem executada no primeiro filme.
Uma das coisas mais interessantes é a atuação da Hannah Emily Anderson, que faz a Mary e outras três mulheres ao longo do filme. Tudo no caminho envolve a situação do protagonista, todas as mulheres que ele encontra praticamente são como versões da Mary – a figura da mulher fantasma que “persegue” o personagem masculino e ajuda na destruição de qualquer resquício de estabilidade mental do mesmo, como em Um Corpo Que Cai (1958), o exemplo mais clássico desde arquétipo.
É uma pena a narrativa não conseguir ir muito além nessa questão psicológica. O que soa mais como um fan service e não chega lá nunca. Por isso, não consegue ser tão dramaticamente envolvente quanto tinha intenção e a resolução do conflito de James com a Mary fica meio jogada.
Apesar de eu gostar da maneira mais livre e espontânea que o Gans trata a narrativa, não deu pra sentir muita coisa. Por outro lado, o longa é lotado de flashbacks, mas o final não tenta ser explicadinho e vai para um lado mais sugestivo, o que eu gosto bastante.
É uma obra que tem ótimos momentos de terror e ação bem gamificados, com decupagem e composição de cenários realmente muito apaixonados, porém o filme perde um pouco de força por não conseguir dar peso à teia de aranha de acontecimentos, símbolos e ideias que tenta articular.