O cinema escapista na Hollywood atual vem perdendo o seu valor justamente por estar abrindo mão de seu maior mérito: o descompromisso. Filmes de ação simples geram franquias megalomaníacas, repletas de spin-offs ou séries de TV/streaming adjacentes; os universos compartilhados se expandem a todo vapor; e, em meio a isso, até mesmo aqueles filmes mais diretos parecem se importar muito mais com o anúncio do que vem por aí ou com referências a um zeitgeist muito específico, que podem envelhecer rápido demais.
Nesse cenário, precisamos de mais sequências como Anônimo 2. Trabalhando para repor a fortuna russa que incendiou no filme de 2021, o ex-assassino profissional Hutch Mansell (Bob Odenkirk) percebe que está se distanciando de sua esposa e filhos, decidindo então tirar férias com a família em um antigo parque de diversões onde seu pai o levava. Após um pequeno desentendimento com as forças policiais locais, Mansell descobre que está no meio de uma rixa do crime organizado provocada por uma perigosa contrabandista. Ou seja, temos aqui uma nova aventura e uma nova ameaça, com pouquíssima conexão com a trama original, gerada a partir de uma aleatoriedade situacional.
É como se a franquia Anônimo estivesse assumindo um caráter de série procedural, sempre com narrativas simples, diretas, lotadas de clichês do cinema “brucutu” oitentista, mas também com uma identidade visual mais contemporânea, nervosa e violenta. A própria repetição de elementos do primeiro capítulo funciona como aquelas marcas registradas de séries policiais da velha guarda, como o interrogatório que abre e fecha a história, já revelando de antemão algumas consequências físicas da nova empreitada de Mansell contra os criminosos. Ou, também, o cotidiano semanal que, de 2021 para cá, muda um pouco com a retomada de Mansell ao “trabalho de campo”, por assim dizer.
Nessa proposta, o bom humor que o diretor indonésio Timo Tjahjanto mantém fora e especialmente dentro da ação cai como uma luva. Em nenhum momento, duvidamos do sucesso da luta pela sobrevivência de Mansell; o barato é justamente os golpes e as possibilidades de interação que o espaço concede a ele. Nesse aspecto, a propósito, reside uma das minhas decepções com o filme. Senti falta de mais inventividade no uso do parque de diversões como uma arena à disposição dos personagens, algo que ocorre apenas em seu clímax e resulta em uma sequência divertidíssima — ainda que eu me incomode com a iluminação de certos trechos.
O caráter quadrinhesco dos vilões se destaca aqui se comparado ao seu antecessor. Sharon Stone, por exemplo, está claramente se divertindo muito com uma criatura tão pitoresca que parece ter saído das páginas de uma HQ ou da programação de um jogo de luta. O mesmo vale para sua dupla de capangas mortais, para o quase imortal xerife mal encarado da região ou para o musculoso arrogante do fliperama. Tjahjanto parece usar inúmeros arquétipos de inimigos para explorar as possibilidades das habilidades de seu protagonista imbatível. Só acho que o diretor perde outra oportunidade ao não dar tanto destaque à família de Mansell, já que, desde os conflitos físicos enfrentados pelo seu filho ao início do filme, a narrativa parece prometer uma espécie de união familiar na ação, como foi feito com Christopher Lloyd no primeiro filme, dinâmica retomada aqui.
Com uma solenidade temática sobre natureza violenta e exemplo parental que insiste mais do que deveria, além das semelhanças descaradas com a franquia John Wick (não precisava daquela casa dos espelhos!) que ainda são mantidas, Anônimo 2 não supera o primeiro mas também não faz feio em via de comparação. É uma sequência que determina a proposta dessa nova franquia de ação e a executa com sucesso. Mas, como meu companheiro de imprensa Lucca Leal me disse ao final da sessão, espero que possamos ver a “Família Anônima” mais inserida na ação a partir de um futuro terceiro filme. Seria divertido!