A proposta de Sonhos de Trem é acompanhar a vida de um trabalhador comum no início do século XX que se torna espectador relutante das rápidas mudanças de um mundo ao qual ele sente que nunca pertenceu realmente. Robert Grainier (Joel Edgerton) é um homem introspectivo, órfão, que desde muito jovem vive de trabalho em trabalho, participando ativamente na construção e modernização de um Estados Unidos em plena expansão. No entanto, ele apenas vê sentido na vida depois de conhecer Gladys (Felicity Jones) e com ela ter uma família e um lar. Baseado em uma novela de mesmo nome escrita em 2011 por Denis Johnson, a narrativa explora temas como solidão e luto, mas principalmente fala sobre a vivência mundana das pessoas que não são protagonistas nos livros de história.
Robert vive passivamente seus dias, mesmo quando observa atrocidades – de assassinato de imigrante chinês até acidentes com quedas de árvore – seja na construção de ferrovias ou na extração de madeira. Ele vivencia a felicidade e o amor quando está com a esposa e a filha, mas logo isso também é tirado dele, restando somente conexões passageiras com colegas de trabalho e pessoas da cidadezinha próxima. O protagonista é um ermitão preso em um mundo antigo que aos poucos se dissolve.
Essa sensação de isolamento, da passagem do tempo e da pequenez do homem perante ao mundo é ressaltada com a bela fotografia criada pelo brasileiro Adolpho Veloso. Das imagens alongadas pela razão 3:2, com as árvores imensas sendo observadas de baixo pra cima, até o uso da luz natural: que no norte dos EUA ressalta a frieza do clima e a cor azul, refletindo os sentimentos de Robert, mas também a esperança em cenas ao pôr do sol ou a intimidade (ou terror) dos momentos iluminados com a luz do fogo. Também com movimentos de câmera como o zoom out, revelando homens minúsculos em uma paisagem grandiosa, ou a câmera quase estática acomodando a ação a partir de um único olhar distante ou remetendo a fotografias de época.
É fácil de se conectar com a jornada de Robert. Em um mundo em que estamos sempre presenciando grandes eventos históricos à distância, ao mesmo tempo que nossas vidas particulares pouco mudaram realmente, o filme nos desafia a refletir sobre o nosso papel na sociedade e na nossa insignificância perante à natureza e o tempo. A vida é feita de instantes, na maioria das vezes quietos, bobos, comuns e memórias quando eles passam. Em determinado momento, Arn Peeples, colega de Robert interpretado brilhantemente por William H Macy, está sentado embaixo de uma árvore no meio da floresta e fala “bonito isso não é? Simplesmente lindo” e ao ser questionado por Robert complementa com “tudo isso, cada pedacinho” – no final de tudo não é esse o sentido da vida?
O tom mais contemplativo, com um personagem pacato, a princípio distancia o espectador ansioso que, de acordo com a Netflix, assiste filmes mexendo no celular e ouvindo repetidas vezes o que está acontecendo na tela. Por isso é estranho que a empresa tenha optado por comprar esse filme e assim tirar a possibilidade de assisti-lo no cinema (que deve ser incrível), sendo que não é o tipo de conteúdo característico do streaming. De fato parece ter sido apenas para criar credibilidade para premiações. No fim das contas, nas telinhas dos nossos aparelhos, Sonhos de Trem ainda é um belíssimo filme que é competente em fazer sentir pelas imagens, ainda que, por vezes, fique um pouco redundante.