Conduzindo Madeleine narra a história de Charles, um taxista que irá levar uma senhora de 92 anos chamada Madeleine ao outro lado de Paris. Porém, a corrida se torna uma viagem pelo passado dos personagens quando a mulher pede para o motorista passar por locais que marcaram a vida dela.
Entre filmes com propostas semelhantes como Conduzindo Miss Daisy (Beresford, 1989) — cuja semelhança entre os nomes vem apenas da tradução, e não da intenção do diretor, vale dizer —, Drive My Car (Hamaguchi, 2021) e, até mesmo, Morangos Silvestres (Bergman, 1957), Conduzindo Madeleine parece mais um amálgama de tramas parecidas.
Não que isso seja necessariamente um problema. Na verdade, talvez o grande mérito da obra de Christian Carion seja a jornada que o diretor desenvolve, levando o espectador a experienciar o riso, o choro, a raiva, a indignação, e tantos outros sentimentos que aparecem na história daquelas pessoas, ainda que tais estruturas narrativas já tenham aparecido antes. O problema é quando essas características são replicadas sem a mesma alma de outros tantos filmes.
Quem leu o ótimo conto de Haruki Murakami que inspirou Drive My Car sabe como o texto e o filme diferem. E nem falo apenas da adição de acontecimentos na obra cinematográfica, mas também de toda a atmosfera que Ryusuke Hamaguchi emprega, a qual potencializa de maneira absurda a impecável trama base. Conduzindo Madeleine, contudo, parece fazer o caminho contrário.
Apesar de a ideia ser muito boa, tudo parece uma decupagem fria da narrativa. Não há uma construção. Pelo contrário, nos quinze minutos iniciais já há uma diversidade de informações sobre os personagens, especialmente a senhora, sem que haja uma adequada progressão das características cinematográficas. Por isso parece tanto mera adaptação fria da trama, sem uma identidade audiovisual correspondente. Não é como A Tragédia de Macbeth (Coen, 2021), que centraliza a performance teatral; parece mais uma versão de Senhor dos Anéis em que se explica tudo sobre os hobbits em vez de desenvolver isso ao longo do filme.
Essa foi minha percepção primária sobre a produção. Entretanto, seria desonestidade da minha parte chamar um filme que me fez rir, que me emocionou e que me fez criar vínculos com os personagens (ainda que apenas perto do final) de ruim. A despeito de todas as críticas que sustentei, é difícil ficar indiferente a Conduzindo Madeleine, mesmo que a sensibilidade da obra seja mitigada por essa falta de uma composição cinematográfica mais digna de sua trama.
Eu gosto como o filme transmite várias emoções e surpresas em seus curtos 90 minutos. Há tantos pequenos núcleos que se entrelaçam, desde a angústia de uma vida dolorida até uma lembrança feliz que perdurou por décadas, e diversas sutilezas que dão uma imagem tão admirável, ainda que naturalmente incompleta, de Madeleine.
Ao longo da experiência, aprendi a gostar da obra. Essa resistência que tive no começo foi se amolecendo, e deu lugar a um apego mais sincero. Os problemas não sumiram, e continuaram me incomodando, principalmente esse ar mecânico dos acontecimentos. Contudo, a conexão que tive com a trama foi aumentando cada vez mais, a ponto de me fazer gostar do filme, ainda que nem tanto assim.