O vendedor de seguros Walter Neff (Fred MacMurray) se junta à sedutora Phyllis (Barbara Stanwyck) em uma trama para matar seu marido após ele assinar uma cláusula de indenização em dobro em seu seguro de vida, enquanto correm o risco de serem descobertos pelo investigador de seguros Reyes (Edward G. Robinson), colega de trabalho de Neff.

Muito se fala sobre a dinâmica de manipulação e de obsessão em Vertigo, de Alfred Hitchcock. Anos antes, porém, um subgênero já tratava de temas semelhantes: o cinema noir. Unindo traços estéticos do expressionismo alemão e do terror da década de 30, esses filmes exploraram um nicho do suspense baseado na investigação policial, e se utilizaram de visuais bastante próprios, com constantes alternâncias e sobreposições de luz e sombra.

Nesse contexto, Pacto de Sangue é considerado uma das obras máximas do noir. Ao meu ver, é uma visão bastante justa, já que o filme de Billy Wilder é praticamente uma síntese de tudo que há de melhor no subgênero. Primeiramente, por se diferenciar de um “whodunnit” (termo para designar os suspenses inspirados em Agatha Christie, nos quais o enfoque está no responsável pelo crime) ao trazer a conclusão da trama para o começo, a fim de transferir a atenção do espectador aos demais aspectos da narrativa. Segundo, pelo uso genial das luzes e da profundidade do cenário para a construção do suspense, como ocorre na cena de Phyllis atrás da porta e na iluminação da casa da mulher, por exemplo.

Tais aspectos interagem com o limitado conhecimento de Neff acerca dos acontecimentos. As reviravoltas não são apenas “viradas” narrativas, pois revelam, a cada cena, fatos que sequer eram cogitados e conectam pontos não exatamente novos, mas que o protagonista se recusava a ver diante de estar imerso na sedução de Phyllis. Ela, por sinal, conduz a narrativa de uma posição de coadjuvante de maneira tão ardilosa quanto Catherine, de Instinto Selvagem; contudo, consegue captar ainda mais a confiança do espectador, em decorrência de uma empatia inteligentemente construída por Wilder ao longo do filme.

E, como Neff parece ser o herói da história, mesmo com métodos questionáveis, Reyes funciona quase como um vilão. Com as sombras que limitam a cognição dos personagens e do espectador, o investigador parece querer jogar luz àqueles fatos que não queremos ver. Com o passar do tempo, porém, é notório como as posições de herói e vilão não são fixas, e todos os personagens eventualmente são incluídos no conjunto de vítimas uns dos outros.

Pacto de Sangue, assim, não é só paradigmático. É também um filme incrivelmente envolvente e intrigante, característica que é amplificada pela curiosidade não citada no longa de ser inspirado em fatos reais. Um dos grandes suspenses da história pelas mãos de um dos melhores diretores de sua geração.