Na Dinamarca de 1755, o Capitão Ludvig Kahlen (Mads Mikkelsen) enfrenta o desafio de transformar uma terra estéril em uma próspera colônia, buscando conquistar um título de nobreza. Contudo, sua ambição o coloca em rota de colisão com o poderoso senhor feudal local (Simon Bennebjerg), que fará de tudo para impedir seu sucesso. A missão de Kahlen se torna uma batalha pela sobrevivência, na qual ele poderá conquistar glória e riqueza ou perder tudo, inclusive a vida.

A relação do homem com a natureza é tema constante no cinema. Muito antes de filmes em que o meio ambiente se volta contra a humanidade como em Fim dos Tempos (Shyamalan, 2008), os faroestes glorificavam a conquista das terras “selvagens” como uma forma de trazer a civilização nos moldes europeus àquelas regiões. Por diversas vezes, as histórias desses longas tornavam heroicos atos de barbárie, de modo a produzir não só um véu ideológico a essas conquistas, como também fortalecer a ideia de um ser moral inabalável, destinado a levar progresso e a destruir aqueles seres inferiores externos e hostis à “civilização”.

Assim, diretores como John Ford e Raul Walsh utilizaram-se de planos abertos, da profundidade de campo e dos cenários desérticos para contar histórias desses grandes homens e dos dramas que viviam em suas jornadas heroicas. Evidentemente, as coisas não eram bem assim, e o cinema vive há décadas um momento de revisão dos princípios clássicos dos faroestes, principalmente na Itália com os faroestes spaghetti, e com novas visões dentro dos Estados Unidos, a partir de diretores como Clint Eastwood e até mesmo um John Ford mais maduro.

Na Dinamarca, é claro que a situação não é idêntica. Afinal, a “conquista do oeste” não era tratada no país como foi nos Estados Unidos, e uma crítica a tal momento histórico não é algo tão visado pelos cineastas desse lugar. O país, porém, guarda em seus mitos fundantes algo de semelhante, com grandes homens que domaram a natureza. Assim, o acontecimento real que dá origem a O Bastardo conta sobre um homem excepcional que tenta superar o impossível e fazer uma plantação em um local conhecido pela sua infertilidade, e que desafia a aristocracia local para realizar seu sonho. O filme, porém, busca algo distinto.

O diretor Nikolaj Arcel utiliza desses signos próprios do western (como os planos abertos, a trama de conquista da natureza, entre outros) para contar a trajetória de um personagem bem diferente dos corajosos heróis do cinema clássico. O meio em que Ludvig vive não o permite ser moral, mas apenas um sobrevivente, menos em decorrência do solo infértil — até porque o homem tem uma ideia bastante sólida para lidar com isso — e mais pelas complexas relações de poder da região. Nisso, O Bastardo se aproxima de obras como Coração Valente (Gibson, 1995) e O Patriota (Emmerich, 2000), em que o homem do campo enfrenta a aristocracia local com força e coragem para proteger a liberdade do cidadão de bem; contudo, também se afasta desses, pelo fato de o personagem de Mads Mikkelsen ser menos mítico e mais palpável.

Apesar de Ludvig e De Schinkel constituírem polos de herói e vilão, e o segundo ser basicamente um psicopata, a trama não é sobre um moralismo vazio de liberdade, ou de sonhos de civilização. O protagonista se contrapõe ao poderoso sem definir uma ética oposta, tampouco agir como um mártir do direito humano à busca da felicidade, como tantas vezes visto no cinema ocidental. Não há excepcionalidade nem heroísmo em Ludvig, mas apenas um instinto de sobrevivência e uma vontade de poder, além de uma forte dependência de outros para sua manutenção. Afinal, o seu “sonho” nada seria sem a ajuda das mulheres, dos empregados e até mesmo da criança cigana que vive com eles.

Acaba que, mesmo havendo um vilão, é difícil ser partidário incondicional de um homem que submete a si e a outros a condições insalubres para conseguir um título de nobreza. O personagem de Mikkelsen é uma versão humanizada do mito que inspira a trama, e dos grandes homens dos faroestes e dos contos de liberdade. A obra é, nesse ponto, ao mesmo tempo um épico e um anti-épico: conta-se uma jornada grandiosa sobre homens pequenos, tal como faz O Homem do Norte (Eggers, 2022), de modo a contrastar o mito e o ser humano.

O Bastardo é, assim, um filme de contradições. Entre classes, entre visões morais nebulosas, entre a aparência e a essência das relações sociais do campo. A conquista da natureza é menos sobre produzir heróis e mais sobre ser palco de violência entre homens que acham ter direito natural sobre ela. Apesar de o ambiente não reagir como em outras obras, ele é um objeto que coloca em pauta os limites dos mitos sobre as pessoas que construíram sua civilização em cima dele. Para além da moralidade e do épico, há uma constante disputa de poder que somente cria opressão de todos os lados, sem exceção. A partir disso, surge um dos melhores e mais interessantes lançamentos desse ano.