Nos anos 1970, as vidas de Sheryl Bradshaw (Anna Kendrick) e do assassino em série Rodney Alcala (Daniel Zovatto) se unem em um programa televisivo de namoro, em uma história baseada em assombrosos fatos reais.

O substrato fático de A Garota da Vez já é absurdo o suficiente para deixar qualquer um intrigado. Por isso, um de meus temores quanto à diretora estreante Anna Kendrick — que muitos conhecem por seu papel de Jessica na franquia Crepúsculo, e que também estrela o presente filme — seria de esgotar a proposta já em seu início. O longa começa já bastante tenso e apresentando os diversos aspectos explorados posteriormente, elemento capaz de prejudicar a sustentação dessa tensão por toda a duração.

Felizmente, a diretora consegue deixar o filme assustador do começo ao fim. Assustador no sentido literal mesmo, porque tudo que concerne ao assassino de Daniel Zovatto carrega uma dualidade de charme e de ameaça constante; e se contrapõe à performance ora acuada, ora cômica, mas sempre vulnerável de Anna Kendrick. A direção do elenco, em conjunto com o comando das cenas de suspense são os grandes méritos de A Garota da Vez, principalmente nos momentos mais extremos da narrativa.

Entretanto, é bem incômodo como o thriller se desfaz constantemente pelas escolhas de edição da diretora. O longa é episódico e fragmentado de uma maneira bem frustrante, com um núcleo da narrativa quebrando a unidade do outro, e alguns desses núcleos se desenvolvendo sem chegar a lugar nenhum. Em dado momento, até a narrativa principal do programa de televisão fica escanteado e com pouco espaço perto de pontos secundários da trama.

Esses pontos secundários, aliás, formam muito da qualidade da reta final da obra. Se no começo a articulação entre o jogo televisionado e o perigo eram a maior fonte de interesse, mais à frente o espectador pode se ver tentado a direcionar sua atenção às histórias das vítimas e às consequências delas. Sinto isso especialmente com o trecho de Amy (Autumn Best) dado que a realidade desse relato se torna mais interessante que a da trama principal, e não houve um cuidado dramático maior por parte da direção para evitar essa discrepância.

Então, por diversas vezes é normal se perguntar qual é o ponto de A Garota da Vez. Enquanto a proposta é direcionada para esse curioso evento envolvendo o assassino e o programa de TV, a diretora opta por não mudar os fatos reais em prol de um desenvolvimento dramático mais contínuo e, com isso, gera um grande número de dificuldades na conclusão, quando as tramas falham em se conectar, e fracassam inclusive em trazer uma ideia sobre o recorte temporal escolhido e sobre a proposta em geral.

Essa fragmentariedade e a falta de uma conclusão mais tradicional dos núcleos da trama não precisam ser um problema, como não são em Onde os Fracos Não Têm Vez (Irmãos Coen, 2007), por exemplo. Entretanto, o longa de Anna Kendrick não parece ter consciência da sua própria amplitude, tampouco a utiliza para subverter a condução comum dos thrillers. Pelo contrário, parece que há uma junção mal articulada de uma história de primeira linha de serial killer com tentativas isoladas de desenvolver personagens e de tratar de temas sociais, mas sem unir ambos em uma linha só.

A Garota da Vez pode ser meio frustrante em vários momentos, mas é inegável como ele revela uma maturidade absurda por parte da diretora estreante, que consegue extrair grandes atuações e angustiantes cenas de tensão mesmo em momentos mais singelos. Nem sempre o espectador consegue sentir por inteiro esse desconforto, por ele ser a todo momento arbitrariamente interrompido por outras tramas menos interessantes, porém seria injusto negar valor à produção como um todo por isso.