O TEXTO A SEGUIR CONTÉM SPOILERS!

Vou tirar o elefante da sala e, apesar de ter consciência do quão ultrapassado esse assunto é, sei que ainda contamina o imaginário de inúmeros cinéfilos mundo afora: Kristen Stewart é uma atriz extremamente talentosa e demonstra isso desde seus 12 anos de idade, quando encarnou a jovem Sarah Altman no suspense O Quarto do Pânico (Fincher, 2002). A mancha da Saga Crepúsculo (2008-2012) em seu currículo é muito mais uma problemática do material original da autora Stephenie Meyer e de uma questão de zeitgeist e, sim, de misoginia. Seus trabalhos durante e após a cinessérie de fantasia continuaram de extremo bom gosto e de uma curadoria invejável de cineastas, incluindo nomes como Olivier Assayas, Woody Allen, Kelly Reichardt, Pablo Larraín, Rose Glass, Walter Salles e, até mesmo, David Cronenberg.

Passando por todos esses nomes em uma carreira ainda relativamente curta, era de se esperar que seu primeiro trabalho na direção herdasse certos aprendizados daqueles que já a coordenaram e que, em maior ou menor grau, contam com um conjunto de obras bem autorais. Porém, não é isso que acontece em A Cronologia da Água. Em absolutamente momento algum! Baseado no livro de memórias homônimo da escritora Lidia Yuknavitch, publicado em 2011, o longa acompanha fragmentos da vida traumática da dita cuja, criada por um pai sexualmente abusivo e por uma mãe negligente e alcoólatra. O que segue é uma narrativa que vai e volta no tempo ao passo que Lidia, vivida aqui por Imogen Poots, é assombrada por seus traumas da juventude enquanto tenta superá-los através da literatura.

A grosso modo, essa é uma típica cinebiografia de superação, mas o tendão de Aquiles aqui está na forma como Stewart encena a vida de Yuknavitch. Desde a década passada (talvez até antes), popularizou-se uma certa estética dos filmes ditos independentes que muitas vezes é usada para mascarar um certo vazio criativo. Apelidada sarcasticamente de “Estética Tumblr”, por causa das fotos que eram publicadas nessa rede social, ela consiste em um foco quase compulsivo por paisagens ao amanhecer ou ao pôr do sol, com um aspecto esfumaçado a partir da granulação retrô e capturadas/filmadas em luz natural. Basta olhar para a obra recente de cineastas como Chloé Zhao, Alejandro González Iñárritu, Emerald Fennell, Terrence Malick, e inúmeros longas lançados com o selo da A24, que podemos perceber como essa tendência é usada como forma de dar um outro caráter para determinados filmes. E muitas vezes, isso é feito sem um pensamento mais aprofundado em suas ideias narrativas.

Aqui, como um dos exemplos máximos, não deixa de ser contraditório como os abusos sofridos pela protagonista, mesmo que não explorados de forma explícita, são constantemente embelezados pela fotografia de Corey C. Waters, enquadrada a partir de uma razão de aspecto que lembra aquela de vídeos caseiros – outra escolha estética que mais parece querer enfeitar as imagens ao invés de comunicar alguma ideia. O mesmo vale para a narração solenemente poética que evoca uma atmosfera contemplativa ao longa, mas é, a todo momento, quebrada por um linguajar mais informal da protagonista, permanecendo inexplicavelmente no mesmo tom lânguido de lamentação eterna. Não existe dinâmica dramática aqui, não existe qualquer desenvolvimento de sua personagem a não ser suas próprias meditações sobre sua vida abusiva.

Isso nos leva a outra contradição extrema da obra de Stewart: se estamos falando de uma narrativa de superação, por que o filme parece querer definir a protagonista como uma eterna vítima de seus abusos? Com uma estrutura não linear, estamos voltando o tempo todo ao sofrimento de Lidia e, até mesmo no presente, esses mesmos abusos se espelham em sua própria forma de lidar com os relacionamentos, com as relações sexuais, com suas figuras de autoridade. E se isso poderia ser uma chance de demonstrar como os nossos traumas afetam a nossa forma de enxergar o mundo, a encenação alcança um resultado que se satisfaz com a caricatura. Nem Poots, que tenta a todo momento engrandecer o filme com sua performance, consegue fazê-lo de tão fragmentadas e dispersas que todas as cenas se mostram. Isso sem falar das tentativas constantes de chocar o público de forma especialmente gratuita, como no parto do bebê natimorto e a forma como a protagonista lida com isso.

No fim, podemos dizer que Kristen Stewart nos presenteou com o Blonde (Dominik, 2022) desse ano, um filme que parece construir uma personagem para ser constantemente abusada e traumatizada e encena isso com uma poesia barata, que torna tudo extremamente caricato e que busca constantemente ser aprovado como um “verdadeiro cinema autoral”. Ao menos, podemos dizer que o controverso filme de Andrew Dominik propunha uma jornada de puro pesadelo dentro do show business na vida de Marilyn Monroe, mesmo que não alcançasse muito sucesso a partir dessa proposta. Já A Cronologia da Água parece buscar uma identidade autoral naquilo que é possivelmente o aspecto mais “anti-autoral” do cinema contemporâneo: a emulação de uma estética agradável para uma narrativa que deveria ser genuinamente assombrosa.