“Enquanto existe música dentro de cada um existe liberdade”
Eu amo a música brasileira. Não a música corporativa, feita por gravadoras e financiada pelos empresários da indústria fonográfica e pelo agronegócio. Amo a música realmente brasileira, aquela que vem do nosso povo e que fala sobre os problemas e sobre as alegrias desse belo e complicado país. Amo a música que usa dos nossos arranjos e da nossa maneira de compor, que se utiliza dos estilos estrangeiros para reinterpretá-los à nossa forma — e não para reafirmar a hegemonia deles.
A história de Luiz Melodia é a história de um Brasil cuja beleza respira por aparelhos. É a história de um dos artistas mais originais e inspirados que esse país já teve e, também, a história de tantos outros, dentre os quais Gal Costa, Banda Black Rio e Maria Bethânia são alguns dos nomes. De Pérola Negra, um clássico inquestionável que mistura o samba com o blues afro-americano, até seu falecimento em 2017, passando por “Juventude Transviada” — que talvez você conheça da novela “Pecado Capital” — até um inesperado papel no filme “Casa de Areia”, de Andrucha Waddington; todos esses marcos fizeram parte de alguns dos melhores momentos para a arte brasileira, e nos deixou antes de presenciar um crescimento ainda maior do imperialismo cultural que sufoca esse país.
No documentário Luiz Melodia: No Coração do Brasil, celebra-se essa felicidade que o artista nos trouxe em seus 66 anos de vida. A opção da diretora iniciante Alessandra Dorgan em deixar o próprio contar sua história e juntar a narração com imagens suas, intercalando-as com músicas e apresentações, é um dos maiores destaques. Além de se diferenciar do estilo jornalístico sem graça em que muitos documentários nacionais caem, deixa a obra muito mais emocionante e pessoal, visto que o enfoque da narrativa é algo muito próprio de Melodia, o qual certamente iria querer que um filme sobre sua vida fosse uma celebração e não somente uma peça de nostalgia.
É uma pena que não fomos presenteados por um aprofundamento maior dessa figura. Penso que um espectador com pouca familiaridade com a MPB e com o próprio artista pode ter algumas dificuldades em se conectar com o longa, por ele não apresentar um contexto nem um desenvolvimento mais minucioso sobre seu objeto. A diretora joga mais luz à experiência do que à informação, porém acaba deixando de lado o fato de que uma quantidade adequada de informações pode amplificar a experiência, principalmente para aqueles sem uma aproximação prévia com a temática.
Luiz Melodia: No Coração do Brasil parece uma conversa de bar em que somos convidados a tomar uma cerveja com o artista e ouvi-lo falar sobre sua fascinante história. É um documentário delicioso, surgido de um amor imenso não só por Melodia, mas também pela música de forma geral, e que consegue traduzir essa devoção sem cair no caminho fácil de chamar comentadores com discursos prontos, ainda que não seja tão profundo na vida do músico quanto poderia ser e às vezes um pouco repetitivo.