Certa vez, disse o músico de jazz John Coltrane: “Eu acho que a música é um instrumento. Ela pode criar os padrões de pensamento iniciais que podem mudar o pensamento das pessoas“. Essa frase é repetida em Trilha Sonora Para um Golpe de Estado, cujo título já destaca uma relação entre política e arte a qual Coltrane se referia. Aqui, mais especificadamente, a estreita conexão entre cantores norte-americanos de jazz e uma das épocas mais sombrias da história da República Democrática do Congo, sem que ambas as partes entendessem, naquele momento, como suas histórias se cruzavam.
O documentário se passa majoritariamente no início dos anos 1960, quando, após a independência da República do Congo (hoje República Democrática do Congo) — que havia sofrido por quase 100 anos a barbárie de um dos processos coloniais mais brutais da história por parte da Bélgica — e a eleição de Patrice Lumumba, líder anticolonialista e maior nome da luta contra o imperialismo belga no país, os Estados Unidos, com o apoio da Organização das Nações Unidas (ONU), planejam um golpe contra o primeiro ministro congolês enquanto se utilizam de shows do músico de jazz Louis Armstrong no país para distrair o povo das tramas políticas.
No interior desse contexto, o diretor Johan Grimonprez nos leva a uma aprofundada jornada sobre a crise no Congo principalmente sob a ótica dos grandes personagens desses fatos: a ONU, os Estados Unidos, a Bélgica e Lumumba. O autor faz um recorte histórico bastante restrito e estrutura os 150 minutos do documentário como uma espécie de rabbit hole — expressão que designa uma exploração de um certo tema que parece simples à primeira vista, mas se torna inesperadamente ampla e fascinante — em que somos engolidos por um apanhado de entrevistas, gravações e trechos de livros tanto na perspectiva dos congoleses quanto das conversas públicas e privadas dos responsáveis pelas potências mundiais, tudo isso acompanhado por um constante jazz de fundo e a apresentação de diversos músicos, principalmente aqueles que falaram contra o imperialismo.
Essa convergência de informações, fontes primárias de conteúdo e música gera uma progressão interessante de sentimentos: começa como uma curiosidade histórica, e termina em um senso de revolta absurdo. A escolha do diretor de apresentar um minucioso contexto antes de abordar o tema propriamente dito é bastante acertada, visto que nos dá uma dimensão de tudo, desde os interesses envolvidos — em particular a importância do Congo no fornecimento de Urânio e o lobby da Union Minière, empresa privada belga que atuava no local — até a sintonia em que estavam o então presidente dos Estados Unidos Dwight Eisenhower e o secretário-geral da ONU Dag Hammarskjöld, comprometidos em manter a subalternidade internacional do Congo e literalmente eliminar Lumumba.
O ritmo mais cadenciado e a priorização dessas informações dá ao longa um peso incrível, em especial nos 30 minutos finais. De certa forma, nos transmite um pouco da experiência de viver aquele contexto, com toda a contradição entre a felicidade do jazz e a raiva que sentimos da maioria daqueles homens. Ao final, somos inundados por ódio, algo que Grimonprez claramente também sentiu ao dirigir o filme. Ódio pela ONU por (como sempre) atuar como ferramenta das potências internacionais; ódio pelo cinismo dos Estados Unidos e da Bélgica em negar sua própria natureza imperialista e alegar estar “civilizando” aquele povo, como muito bem demonstrado em uma cena na qual um mercenário contratado pelo governo belga menciona estar fazendo isso pela “liberdade e democracia” enquanto passam imagens de crianças congolesas mortas nas ruas; ódio por sermos obrigados a viver em um mundo no qual a arte é utilizada como instrumento de dominação e de sofrimento, fato que fez Louis Armstrong cogitar deixar sua nacionalidade estadunidense após descobrir o real objetivo de sua ida à África; e, claro, ódio pelo fato de as pessoas que perpetraram (e ainda perpetram) tais atrocidades ainda estarem no poder, em nome da mesma ideologia dominante.
Trilha Sonora Para um Golpe de Estado é tão marcante quanto é revoltante, para aspectos que vão muito além do que esse texto me permite exprimir. A indissociabilidade entre a arte, a política, o imperialismo e as lutas populares é apresentada em um tom trágico, como não podia ser diferente, dado que essa jornada infelizmente é marcada pela derrota não só do povo congolês, mas da humanidade, tudo em prol dos interesses do capital. Contudo, diferente do que aconteceu nos anos 1960, dessa vez o jazz não nos distrai, e pode se tornar um pilar para imaginarmos um mundo diferente.