Após estreia no festival de Cannes e uma recepção mista, nós, reles mortais, agora podemos ter o desprazer de assistir Tipos de Gentileza, essa antologia enfadonha do diretor Yorgos Lanthimos. Novamente em colaboração com Emma Stone, como em A Favorita (Lanthimos, 2018) e Pobres Criaturas (Lanthimos, 2023), ambos ótimos, pela primeira vez com o extraordinário Jesse Plemons. São três curtas que se interligam, apenas em teoria, por terem o mesmo elenco e tratar de temas como morte e sexo de maneira inusitada e por vezes grotesca. A escolha, porém, de unir as três histórias em um único lançamento se deve, talvez, a questões comerciais mesmo.

Os curtas são longos e se arrastam com uma edição lenta e desinteressante, ao mesmo tempo que teriam potencial para serem melhor desenvolvidos como longas também. No primeiro filme, um trabalhador é escravo do chefe, que faz todas as escolhas do homem — desde o que vai comer, onde morar e com quem casar — e este faz tudo o que o chefe manda. No primeiro momento em que ele recusa fazer o trabalho, que consiste em matar uma pessoa, ele é dispensado e a vida dele desmorona. O segundo trata de um casal, em que o marido é policial e a esposa é vítima de um naufrágio. Todos acreditam que ela morreu, mas por um milagre ela é encontrada e retorna à casa, porém o esposo desconfia de que a moça não é mais a mesma. Já na terceira história vemos uma mulher parte de um culto sexual em que os participantes devem estar “puros” para participar. Ao mesmo tempo, ela busca uma jovem especial que tem poder de cura.

As premissas são curiosas e poderiam evocar de maneira mais orgânica as excentricidades do diretor, mas aqui ele parece forçar uma espontaneidade que se traduz em um desconforto apenas por vergonha alheia mesmo. Por um lado Lanthimos tem nas mãos um elenco brilhante e disposto a ir a qualquer profundeza que ele proponha, por outro ele como roteirista cria personagens estoicos — remanescentes de um Wes Anderson, mas sem cores vivas aqui —, que parecem existir somente para reagir (sem emoção) a situações imbecis, sem qualquer carisma, profundidade ou comicidade. Um exemplo é a fatídica cena do vídeo caseiro na segunda história.

Também, uma vez que você espera que algo bizarro vá acontecer, é provável que sua imaginação vá além e, na hora em que acontece alguma coisa, o primeiro pensamento é “mas era só isso mesmo?”. No entanto o pior, na minha opinião, é que parece que um dos motivos de piada recorrentes tem a ver com gravidez e aborto. O diretor talvez acredite que é algo surreal e nojentinho (e pode ser mesmo), mas usa da forma mais machistinha possível, tendo os corpos das mulheres, nas três histórias, controlados por homens e usados como uma ferramenta de enredo inconsequente.

Os exemplos a seguir podem ser encarados como spoilers, então pule esse parágrafo se quiser. Mas preciso comentar as situações que, a meu ver, foram tratadas de forma banal e desrespeitosa – e que acredito que de outra forma poderiam trazer tensão, terror ou até humor, se tratadas de outra maneira. Na primeira história, a esposa do protagonista é obrigada por ele, e por extensão pelo chefe, a não ter filhos, com isso toma um remédio abortivo e supõe que são espontâneos; na segunda a moça é espancada e tem a gravidez interrompida; na terceira ela é estuprada pelo pai da filha dela, com quem ela não se relaciona mais. As três situações são tratadas como uma casualidade e mais um detalhe bizarrinho em narrativas, essencialmente masculinas, que, salvo talvez a terceira, de nada tem a ver com as respectivas tramas. Ainda assim, escolhem usar estupro e aborto como mais um aspecto “chocante”.

Dito isso, fui defensora de Pobres Criaturas quando surgiram críticas sobre misoginia e o tropo do “born sexy yesterday” (personagens que têm mente infantil, mas são transantes). Nesse caso acredito que a personagem tem completa agência nas ações dela, tem uma maturidade acelerada e discernimento para fazer o que faz. Aqui não. As personagens femininas são apenas clichês, de histérica, de figura maternal e de decoração (pobre Margaret Qualley). Enquanto os masculinos — especialmente os do estupendo Jesse Plemons nas duas primeiras histórias — tem camadas a serem (mal) exploradas.