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Mesmo com uma filmografia, ao meu ver, irregular, é inegável a versatilidade de Paul Thomas Anderson. Da caótica crônica de um trabalhador comum em constantes crises de ansiedade social na cidade de Los Angeles (Embriagado de Amor, 2002) ao rebuscado drama romântico edipiano no universo da alta costura britânica (Trama Fantasma, 2017), o cineasta já explorou diversas narrativas sobre obsessão, poder e/ou paranoia. Infelizmente, uma de suas empreitadas mais decepcionantes foi Vício Inerente (2014), adaptação do romance homônimo de Thomas Pynchon, originalmente publicado em 2009.
Com isso, foi com certo receio que entrei na cabine de imprensa de seu mais novo filme. Afinal, Uma Batalha Após a Outra é inspirado em um outro romance de Pynchon, Vineland (1990), adaptando a ótica do Governo Ronald Reagan para o ponto de vista de um EUA à beira da ebulição sob a administração autoritária de Donald Trump. A julgar que Anderson começou sua produção no início do ano passado, é de se admirar como tudo que é satirizado nessa sua obra mais recente — supostamente passada em uma distopia — parece baseada em fatos recentes do segundo mandato do “Laranjão”.
Assim como seu thriller neo-noir de 2014, Anderson mantém a paranoia como temática principal ao focar em um grupo de revolucionários que começa a ser caçado por um antigo adversário militar, agora determinado a participar de uma seita secreta, formada por figuras de poder, que flerta — ou melhor, faz amor — com o neonazismo. Ao trabalhar a jornada de autopreservação e resgate paternal de Bob Ferguson (Leonardo DiCaprio), que vivia uma vida pacata com sua filha adolescente, o diretor usa uma abordagem bem semelhante àquele frenesi que acompanhava o Barry Egan de Adam Sandler em sua comédia de 2002, já supracitada, e que foi provavelmente uma grande inspiração para os longas mais recentes dos irmãos Josh e Benny Safdie (como Bom Comportamento em 2017 e Joias Brutas em 2019).
Felizmente, talvez esse seja o ponto de maior discordância entre suas duas adaptações de Pynchon. Se Vício Inerente apostava inexplicavelmente na verborragia informativa e nos planos fechados que enquadravam apenas os rostos de seus personagens em longos diálogos redundantes, aqui o interesse é na ação, na fuga, na vigilância e, vez ou outra, no baseadinho de praxe para desopilar (tanto seus personagens quanto o público). Há um humor satírico bem incisivo aqui — que tem seus problemas, vou tratar mais adiante — e, até quando aposta nos diálogos absurdos, Anderson demonstra uma certa sagacidade para filmar aquilo da forma mais ridícula e debochada possível.
Ao aproximar mais Bob de seus caçadores, o cineasta é inteligente ao mudar o tom narrativo, que começa a flertar com uma espécie de western moderno de tensão crescente. A escolha do cenário final ser o vasto deserto do sudoeste dos EUA não é à toa e chega a ser, de certa forma, simbólica pelo contexto político criado pelo filme. Eu diria que essa reta final, esse clímax, é quando Anderson mais inova dentro de sua própria filmografia; o momento em que ele mais se desprende das autorreferências e parte rumo a novos ares.
Porém, para um filme tão disposto e bem sucedido ao zombar da onda recente do fascismo à americana — em especial, ao explorar o movimento pendular trágico das ondas de progressismo e conservadorismo em vários dos países infectados pelo imperialismo ianque —, sinto que seu “primeiro ato” perde a mão na sátira contra os próprios revolucionários. E vou além: de início, parece que a zombaria pega muito mais forte com os personagens progressistas do que com os milicos que estão fazendo guarda para campos de concentração de imigrantes em solo estadunidense. A personagem de Teyana Taylor, por maior que seja o esforço da atriz nas cenas mais dramáticas, parece programada pelas fake news trumpistas ao citar constantemente as pautas que defende mesmo que de forma deslocada, ao se referir à sua filha com desdém desde a gestação e ao trair a confiança de seu grupo como se as causas que repetiu tantas vezes não fossem mais importantes.
Eu entendo que a intenção de PTA era, provavelmente, a de não romantizar ou idealizar esses grupos e torná-los complexos enquanto personagens. Porém, a maneira como filma e organiza as cenas de seu longo “prólogo” transforma seu grupo revolucionário em um deboche conservador instantâneo; e considerando a importância que esse passado reflete no presente, depois de uma elipse de dezesseis anos, o filme acaba perdendo coesão com essa aparente tentativa de ser mais moderado entre ambos os lados. Enfim, o cinema hollywoodiano endossar o revolucionário seria realmente pedir muito, né?!
Com isso, admito que Uma Batalha Após a Outra não figura entre os melhores longas da carreira de PTA, mas talvez seja um dos mais interessantes e imprevisíveis de sua já versátil filmografia. É uma obra que parece compreender muito bem seu próprio contexto histórico, além de algumas contradições e dinâmicas naturais da democracia burguesa. Só acho que, assim como acontecia em Boogie Nights (1997), Magnólia (1999) e o já citado Vício Inerente, a natureza caótica de seu filme acabou vencendo o seu próprio criador. Pelo menos, por um curto período de tempo. O filme ainda é ótimo!