Existem filmes que escolhem manifestar críticas a filosofia hipócrita da igreja católica e da fé cristã em meio popular de forma caótica e visceral, vilanizando os atos da instituição e expondo sua conduta corrupta, como no excelente A Paixão de Joana d’Arc, que retrata uma igreja católica quase que demonizada perante a martirização de uma santa. Além disso, também existem aqueles que subvertem a imagem de ídolos cristãos, como Scorsese com seu Jesus humano em A Última Tentação de Cristo, ou Pier Paolo Pasolini com seu manifesto marxista baseado na figura e no caráter revolucionário de Jesus Cristo em O Evangelho Segundo São Mateus. São, nesse sentido, histórias que tratam de valores e mitos cristãos de uma forma não convencional em suas propostas filosóficas. Entre esses dois tipos de filmes, existe aquele que expõe seu teor crítico de uma forma não tão convencional, decupando sua narrativa de uma maneira satírica e novelesca que, ao mesmo tempo, critica e ridiculariza a instituição católica; um exemplo desse tipo de obra é Conclave.
Confesso que não sou um grande fã do último longa de Edward Berger, Nada de Novo no Front, muito por ele saturar sua própria visão crítica da guerra – temática essa já trabalhada de forma mais impactante e profunda em diversos outros filmes – ao longo de sua própria narrativa, um pequeno detalhe básico que é realizado magistralmente em seu novo trabalho. Conclave, primeiramente, pode parecer um thriller político e histórico cru que abordaria suas questões em uma narrativa clássica desse subgênero. Entretanto, o filme se constrói por meio de encenações e desenrolos narrativos que possuem um certo caráter de novela: todas as tramas e descobertas, junto das interações e dos diálogos entre os cardeais, são bem dramáticas e levemente exageradas, algumas até chegando em um tom cômico. Ele funciona quase que como uma sátira que se leva um pouco mais a sério, mas não ao ponto de se tornar um trabalho de pseudo-intelectualidade, e sim de trabalhar suas críticas e sua satirização de maneira direta, tornando-a algo intrigante e fácil de acompanhar.
O conclave, após a morte do papa, torna-se um palco de disputas políticas, morais e de fé e, como já disse, tudo isso é abordado de maneira direta e satírica. O Cardeal Lawrence (Ralph Fiennes) é um protagonista de moral absolutamente correta, ele serve como o condutor de todo aquele motejo que o filme trata em seu suspense, pois ele não se interessa pelo poder ou pela posição de papa dentro daquele conjunto de tramas. Do contrário, ele faz o que acredita ser o correto para a Igreja e isso fica mais claro quando todas as informações comprometedoras chegam a ele pelo Monsenhor O’Malley e, com relutância, ele expõe tudo e todos.
Além de Lawrence, o filme transforma todos os principais candidatos ao papado em representações exageradas e quase estereotipadas de diversas características negativas da Igreja Católica. Aldo Bellini (Stanley Tucci) é um liberal que se assemelha ao antigo papa, mas que possui uma covardia interna que o impede de possuir força; Joseph Tremblay (John Lithgow), um moderado mentiroso e corrupto; Joshua Adeyemi (Lucian Msamati), um cardeal reacionário e extremamente conservador; e Goffredo Tedesco (Sergio Castellitto), um tradicionalista com ideias morais que beiram a ideologia fascista.
Todos esses personagens servem como meios de simbologia para os desvios filosóficos que acompanham historicamente o Vaticano e seu governo religioso, sendo Lawrence uma pequena força moral que representa a bondade que o cristianismo supostamente deveria exercer. Conclave é uma obra que busca não só expor hipocrisias políticas e religiosas de uma maneira convencional, ele não se baseia em um episódio histórico para traçar sua visão crítica perante a Igreja e seus membros de forma explícita, ele remonta todas essas figuras corruptas e degeneradas em personagens satíricos que agem em prol dessa visão crítica.
No fim, a simbologia de seu encerramento pode ser vista de diversas formas: uma afronta à Igreja, uma mensagem de progressismo em um ambiente regido pela moral conservadora, ou até mesmo um ato herege contra a fé, mas Edward Berger sabe bem o que quis passar: uma imagem caricata e satírica da fé e sua institucionalização.