O pouco da filmografia de Pedro Almodóvar que eu pude assistir e, dessa maneira, entender o seu estilo cinematográfico, já me deu um certo norte da forma na qual ele costuma construir suas narrativas em meio a um cenário hiper estilizado, sempre usando cores muito vibrantes. E, aliás, não só neles, mas também nas vestimentas de seus personagens. Essa estética estilizada, em sua maior parte dentro das obras do diretor, contribuem para o desenvolvimento dramático de seus personagens, ainda mais quando Almodóvar busca discursar acerca de alguns temas históricos sobre seu país. O Quarto ao Lado não foge dessa temática autoral, onde o cineasta tenta desenhar uma narrativa crítica que reflete o ambiente geopolítico da contemporaneidade.

Martha (Tilda Swinton) é uma jornalista de guerra em um estado terminal de câncer, que se reconecta com Ingrid (Julianne Moore), uma escritora e amiga de longa data, de quem havia se separado há muito tempo. No entanto, pouco depois duas estabelecerem uma pequena conexão de amor e companheirismo, Martha tira sua própria vida. A personagem de Tilda Swinton, ao longo da trama, é caracterizada pelo diretor quase como se fosse uma representação do próprio mundo; uma jornalista que já passou por alguns dos piores momentos da humanidade em seu trabalho, se deteriorando em sua saúde enquanto busca aproveitar seus últimos momentos de vida, vivendo os pequenos momentos de felicidade junto de Ingrid.

É evidente como Almodóvar está querendo muito discursar, de forma quase estoica, sobre o progresso industrial e capitalista que está destruindo a terra. Assim ele o faz por meio de uma história que consegue, de certa forma, ser emocionante em alguns momentos. E seria, com toda certeza, muito mais, se esse discurso do diretor não fosse explícito em certos diálogos desconexos. Há uma cena em que o personagem de John Turturro, ex amante de Martha e atual de Ingrid, conversa com a escritora em um pequeno encontro enquanto entra um monólogo que beira o desespero do diretor para firmar sua ideia sobre esse atual cenário mundial, onde Damien (John Turturro) fala sobre seu medo e sofrimento de continuar vivendo nesse mundo a beira de seu fim, sobre como nega, até o final, colocar uma criança nesse mesmo mundo e como a vida como um artista crítico não surtirá nenhum efeito beneficiador para a civilização. Todas essas ideias, contudo, são manifestadas sem nenhum tipo de naturalidade e coerência, como já disse, o que cria o sentimento do diretor falando no lugar do personagem.

Mesmo essa ideia sendo introduzida na história de maneira bem apressada, a narrativa quase que romântica entre Martha e Ingrid vai diretamente ao encontro desse sofrimento eterno do autor, como servisse, tanto para a audiência quanto para o diretor, de esperança para o futuro, onde a arte toma esse papel de não mudar a realidade, mas sim de alterá-la em prol de histórias e expressões que nos façam sentir vivos.