Muito pouco se diz sobre monólogos no cinema, ainda mais quando não se tratam de reflexões políticas e sociais como nos filmes de Glauber Rocha, nos quais o maior exemplo é a grande fala de Corisco na segunda metade de Deus e o Diabo na Terra do Sol, onde o personagem se manifesta sobre sua existência em meio ao caos do sertão.
Uma abordagem que leva não só a psique daquele que detém a fala, mas também do grande cenário no qual ele se encontra. Sendo ou não mais uma manifestação política do diretor, realizada pela construção narrativa de seu filme, pouco se fala sobre aqueles monólogos que possuem como seu principal objetivo expressar a essência de um personagem perante sua história, uma fala realmente íntima e intrínseca.
A Paixão Segundo G.H é um grande monólogo de duas horas, no qual a personagem de Maria Fernanda Cândido se encontra em uma crise interna quase que de forma sobrenatural. A todo momento, ela se encontra com seu olhar fixado em nós, olhar esse que conduz uma narrativa que não se assume para contar uma história tradicional, mas sim destrinchar a mente e a essência daquela mulher. Nada mais característico e gráfico que o cinema para expressar a alma de uma maneira exteriorizada, onde o uso da imagem se torna essencial para expressar a mente de G.H. Um conjunto de imagens belíssimas sobre o cenário da vida da personagem, unido ao diálogo intrínseco performado por Cândido, consistem na maravilhosa proposta da obra do diretor.
Essa pequena conversação entre o cinema e a literatura, exemplificada na obra, é bem nítida quando observamos o estilo de Carvalho ao adaptar histórias que, segundo alguns, seriam inadaptáveis. Um estilo sensorial e contemplativo que é atento ao sombrio e ao intrusivo da personagem. Ouvir um destrinchamento verbal e imaginativo ao ler um livro é algo natural ao leitor. Ao assisti-lo de forma gráfica, o cinema materializa aquela experiência mental, não fazendo isso de uma maneira que enxerga uma noção diferente da sétima arte, mas sim sua capacidade de lidar com todos os pontos de seu corpo e mente.
Há, além disso, uma gama de referências por parte de Luiz Fernando Carvalho. Desde a aproximação da alma de Ingmar Bergman até a imagem do martírio de Carl Theodor Dreyer; o progresso de uma tortura auto infligida por muitos pensamentos complexados.