Podemos concordar que o MCU vem sofrendo com uma crise não só de criatividade, como também de popularidade, tendo sido incapaz de recriar a movimentação popular causada pelos últimos filmes de sua fase 3, Os Vingadores: Guerra Infinita e Os Vingadores: Ultimato. Além disso, muito de seu marketing recente pareceu muito mais focado na possibilidade de cameos de personagens diferenciados ocasionados pela temática do multiverso dentro de seus filmes, bem como a aquisição dos estúdios Fox em 2017, readquirindo os direitos legais de vários de seus personagens no cinema, vendidos no fim dos anos 90. Deadpool & Wolverine chega como uma tentativa de não apenas levar a massa popular ao cinema, mas também de buscar uma abordagem que case bem com a proposta da existência de um multiverso, e de diferentes versões de seus personagens.

A direção de Shawn Levy não se destaca em meio a construção cinematográfica do longa, antes de tudo, estamos falando de uma produção da Marvel Estúdios, onde toda a autoria e originalidade de seus diretores são engolidas em prol da realização da popularmente chamada “fórmula Marvel”. Levy se parece apenas como uma pequena engrenagem na produção, possuindo seus pitacos de autoria na violência escrachada entre as cenas de ação, que por sinal se apresentam bem menos inspiradas e sangrentas como nos dois primeiros da trilogia Deadpool. Todo seu visual se adapta como ao comum do MCU, que pelo menos em suas últimas produções, procurou assumir um pouco mais sua estética colorida de histórias em quadrinhos, até mesmo na caracterização dos trajes de super-herói. como Deadpool menciona ironicamente no próprio filme, demorou mais de vinte anos para vermos o Wolverine em seu traje amarelo clássico.

O que dá a Deadpool e Wolverine seu pequeno brilho é a forma como o diretor aborda a temática do multiverso tomada pelo estúdio em sua nova saga, de uma forma que nada é levado a sério, nem mesmo os acontecimentos reais envolvendo os estúdios. Os dois protagonistas são jogados em uma dimensão isolada, onde todo o “lixo” do multiverso é enviado, incluindo os personagens da Marvel retratados nos filmes da Fox. Chris Evans retorna como o Tocha Humana, Jennifer Garner como Electra, Wesley Snipes como Blade, entre outros que aparentemente foram esquecidos, tanto pelo público como pela produtora, buscando unir esses personagens em uma última aparição antes de introduzi-los em sua linha temporal principal. Apesar de não concederem um desenvolvimento ou até mesmo um final à eles, essa aparentemente não era a intenção de Shawn Levy, fazendo de tudo isso uma grande piada, como tudo em uma história do mercenário tagarela deve ser, que serve apenas como um fanservice que assume sua piada.

Esse abordagem sarcástica fica evidente até na construção de sua vilã, a irmã mais nova do Professor Xavier, Cassandra Nova (Emma Corrin), uma vilã que, na verdade, é ausente de qualquer construção, ela é má por ser má, não há um motivo profundo para suas ações genocidas, algo que corrobora com toda a grande piada do filme, uma vilã que não busca nada além de caos, pois algo complexo e bem desenvolvido não adere a nada em uma narrativa que se assume como ridícula e autorreferencial.

Apesar de possuir uma abordagem interessante acerca dessa nova proposta da Marvel, o detalhe que faz desse filme não ser uma obra de uma originalidade narrativa e visual, é o típico controle que a produção exerce sobre seus artistas. Apesar de existir seus traços autorais, o diretor procurou trabalhar dentro dessas exigências, o que de certa forma não permite a realização de sua idealização original.

No fim, Deadpool e Wolverine se torna uma grande piada sobre tudo que tem se tornado o MCU nos últimos anos, mesmo não se tornando um humor crítico ou algo do tipo, apenas um grande fanservice que busca não se levar a sério.