Acho que é válido dizer que quase todo bom filme de samurai funciona como uma narrativa revisionista, muito semelhante a o que o cinema de John Ford e grande parte da nova Hollywood fizeram com o faroeste; rever a figura do cowboy como um arquétipo complexo que fora idealizado pelo seu tempo. Nisso, podemos apontar como O Samurai do Entardecer atua narrativamente nessa ideia de recontar como a honra do samurai é, por muitas vezes, degradante para aqueles que aderem a sua conduta, isso pelos olhos de um homem completamente sem quaisquer ambições de poder, mesmo possuindo a capacidade de obtê-lo.

O longa já não se mostra interessado em conflitos entre as espadas daqueles samurais que ali atuam ao lado de Seibei, mas sim em desenhar o melodrama daquele samurai apelidado de Tasagore (Crepúsculo), um homem pobre, fardado com o cuidado de suas duas filhas, órfãs de sua esposa, e de sua mãe doente. Seibei foge completamente da imagem tradicional de um samurai, ele é pacato, recluso e humilde, evita os prazeres da noite, é completamente negligente com sua aparência, se recusa a levantar uma lâmina em várias ocasiões que atingiriam sua honra, recebe pouco de seu emprego e precisa viver de bicos para manter sua família.

Mesmo que esse personagem seja submetido a uma vida de dificuldades, que diretamente afetariam sua imagem como um samurai imponente e honrado, ele parece viver de bem com essa pobreza que assola sua vida. Apesar dessa aceitação, Seibei ainda possui noção de sua posição miserável, até mesmo quando se encontra em uma situação de paixão, ele recusa esse sentimento, pois sabe que não poderá conceder uma boa vida a Tomoi, mas isso muda quando ele é convocado.

Tasagore é chamado para matar um samurai renegado que se recusa a obedecer a ordem de seu lorde e cometer suicídio, o suposto ultimo ato de honra que um guerreiro pode realizar. Ele é relutante em aceitar a missão, pois criou um grande apreço pela sua própria vida e que nenhuma honra vazia poderia poderia fazer com ele a arriscasse.

Seibei, então, encara o renegado Yogo, um samurai em desgraça que passou por diversas tragédias em sua vida, não muito diferente dele mesmo. Yogo é o que Seibei poderia ser, como essa busca por honra dentro do código samurai o levou a ignorar tudo que o rondeava, simplesmente não querendo atender ao chamado de um mestre que não o honrou. Tasagore então se vê espelhado no samurai renegado, uma dualidade que evidencia muito em como essa imagem do guerreiro cai demasiadamente em desgraça, tudo pelo reconhecimento de outros por sua imagem.

Não há mais lugar para a imagem do samurai. Mesmo com o triunfo do protagonista no fim, casado e com suas filha felizes, o mundo exterior faz com que essa vida feliz se vá com a chegada do império. O samurai perde seu lugar para o forte militarismo, imposto pela unificação do Japão e a chegada da Era Meiji. Essa suposta honra, agora, serve como um discurso de uma guerra expansionista, não mais como um guerreiro, mas como um peão de guerra.