Como uma premissa de todo um trabalho de uma vida, Pier Paolo Pasolini desenhava sua complexa ideologia dentro do cinema já em seu primeiro longa como diretor, um primeiro sinal de como sua filmografia se tornaria um espinho aflitivo para o coração daqueles que possuem seu imaginário fundado pelas leis sociais burguesas. Em Accattone, Pasolini flerta com o neorrealismo para criar um conto urbano sobre aquele que se encontra à extrema borda da sociedade, ausentando-se de um potencial melodramático que parte do discurso social visceral clássico do movimento do pós-guerra, isso para retratar um protagonista devasso e condenável.

Accattone (Franco Citti) é um marginal, um homem de moral suja e indecente, a imagem do ser desqualificado pela sociedade, que busca fugir do trabalho a qualquer custo, dizendo que não irá entregar seu sangue a ninguém, não será capacho de alguém apenas para comer, caminho que o leva a ser um aproveitador afortunado com a posição de cafetão, tentando evitar a aceitação de sua posição como um marginalizado. Essa imagem do marginal recebe uma atribuição divina por parte do diretor, como se a figura do socialmente depravado servisse como um tipo de messias para a mensagem que Pasolini busca passar ali, uma característica que viria a ser recorrente em seus futuros filmes, seu personagem acompanhado por estátuas de anjos em seu auto martírio infligido.

A vida boêmia e exploratória de Accattone se torna então um reflexo sujo do povo italiano, diretamente humilhado pelo governo Democrata-Cristão do então primeiro-ministro Giovanni Tambroni. O longa então se torna um manifesto narrativo acerca da completa dominação do imaginário popular pelo consumismo e pelo mito da coletividade igualitária. A principal ideia dessa ideologia consumista que compõe o imaginário liberal é que “o mercado torna-se a única estética à qual conformar-se”, e tudo que fuja desse padrão dentro da ordem social pré-estabelecida deve ser levado com descaso e isolamento. Dessa forma, todo o pequeno universo subproletário da cidade de Roma, conjuntamente da jornada quase messiânica de Accattone se tornam uma metáfora de toda a realidade que o capitalismo proporciona.

Quando Accattone chega ao fundo do poço pela paixão, ele se entrega a verdadeira vida criminosa que dá um fim trágico a sua redenção conflituosa, não uma tragédia causada pela rejeição e exclusão daqueles que o cercam, mas sim um acaso mortal, dando um ar desvirtuado a vida daquele homem que se ausenta de qualquer idealização de sua imagem. Accattone é a própria rejeição, o mundo rejeita Accattone.