O TEXTO A SEGUIR PODE CONTER SPOILERS!!!

Em nome da transparência, queria compartilhar algo pessoal. Poucos dias atrás, fez um mês do falecimento da minha avó, talvez a pessoa mais importante da minha vida e da minha formação. Em seus últimos anos, ela e eu compartilhamos nossa paixão pela música e pelo cinema brasileiros em visitas semanais que eu fazia à sua casa. Uma de suas músicas favoritas, em especial na terceira idade, era Tocando em Frente (1990), composta por Almir Sater e Renato Teixeira. Minha avó tinha algumas dificuldades para andar e dizia que os primeiros versos da música (Ando devagar porque já tive pressa e levo esse sorriso porque já chorei demais) eram sua representação, como uma senhora que já foi diligente e que, agora, andava devagar, mas com um sorriso no rosto.

Quando Vicentina Pede Desculpas começa, já em tela preta, ao som da música de Sater e Teixeira, eu desabei. Provavelmente o mais rápido que um filme já me fez chorar e acredito ser um recorde insuperável. Bastou esse baque para eu me envolver com o longa antes mesmo de sua primeira cena: a brutal tragédia de um ônibus que cai de um viaduto em Belo Horizonte, matando quase todos os passageiros – com exceção de uma mulher grávida – e supostamente por culpa do motorista, também falecido. A partir daí, acompanhamos Vicentina (Rejane Faria), mãe idosa do motorista, que passa a procurar os familiares de todas as vítimas do acidente para lhes pedir desculpas.

Esse é o primeiro longa de Gabriel Martins ao qual assisto, tendo deixado passar o tão falado Marte Um (2022), mas aqui já posso ver como o cineasta é afiado nos códigos do melodrama desde sua premissa básica, na qual a protagonista assume o peso do mundo nas costas, mesmo já debilitada e, em certo nível, solitária, em uma missão puramente sentimental. Se por um lado, a jornada de Vicentina parece episódica ao longo das quase duas horas e meia de duração, por outro, cada encontro representa uma faceta do luto. Ou da ausência dele. Ou da celebração envergonhada.

Martins cria então seu mosaico da perda através da ação em vida, enquanto lida, também, com o próprio conflito da solitária senhora que pensa ter alguma responsabilidade pelas mortes daquele acidente e que, acima de tudo, é uma mãe que perdeu um filho em condições trágicas. O que acontece quando uma mãe em luto conversa com outras mães, pais, filhas, maridos e esposas que perderam seus entes queridos por culpa de seu próprio filho? Seria sua maternidade também culpada? O que mais me sensibiliza na condução do diretor é justamente seu descompromisso com alguma resposta final. Indo contra a onda de melodramas parabólicos, de lógica mais liberal e americanizada, Vicentina Pede Desculpas se satisfaz na indagação, mesmo que desconfortável e conflituosa. Afinal, o luto jamais é superado por completo, é permanente e só nos é adicionado. As perguntas que ficaram sem respostas vão manter-se dessa forma e o que nos resta é saber lidar com essa narrativa em aberto de nossas vidas.

É em sua reta final, porém, que Martins potencializa seu melodrama no processo de aceitação de sua protagonista com a ajuda da amiga Joana (Maíra Azevedo). Ainda dispensando a lição de moral fácil, o realizador consegue concluir seu filme em um desfecho inspirador que não abandona sua melancolia, apenas convive com ela sem esquecer-se do que existe ao redor. Vicentina esbanja sorrisos doloridos porque já havia chorado demais pela sua culpa e pela sua perda. Ela cumpre a vida compreendendo a marcha e tocando em frente.

Sim, voltamos para a música de Sater e Teixeira… e à memória de minha avó. Eu só penso em como ela teria gostado de assistir a Vicentina Pede Desculpas e em como conversaríamos sobre a letra da canção refletir em toda a jornada da protagonista e construção dramática de Martins. Hoje, tendo visto o filme sem ela, percebo que esse reflexo rebate em vida, de forma torta. Apesar de Vicentina ser, em parte, o reflexo de minha avó por seu andar já prejudicado, por sua idade mais avançada e, de certa forma, por sua personalidade, sou eu quem precisa lidar com o luto e ir tocando em frente sem sua presença. Sou eu que preciso aceitar que um dia a gente chega e no outro vai embora.

Se o longa começou me lembrando da saudade que faz minha avó, também atravessa uma jornada de empatia e compreensão melancólica para culminar no cerne temático de Tocando em Frente. Não existe superação, mas sim o abraço da dor como parte de uma história.

Queria ter conversado sobre esse filme com ela. Como queria…