MARIA DE MARIA

Estreando pela Mostra Première Brasil, na competição de longas de ficção do Festival do Rio, o segundo filme de Luiza Shelling Tubaldini acompanha a ex-cangaceira grávida Maria que, fugindo de um sanguinário tenente para o centro-oeste brasileiro, encontra o garimpeiro José Antônio e decide iniciar uma nova vida com ele, enfrentando dificuldades com a infertilidade do cerrado, com um ganancioso dono de terras da região e, obviamente, com seu próprio passado violento.
Tubaldini mergulha desde sua primeira cena nos códigos dos faroestes estadunidenses e italianos, mas os adapta de forma a encaixar em uma narrativa genuinamente brasileira que tem, em Maria, uma representação do povo brasileiro lutando por seus direitos. Os paralelos bíblicos e históricos que a diretora faz aqui não são nada acidentais.
BUCKING FASTARD

Tendo competido no Festival de Veneza mês passado, o novo filme do diretor alemão Werner Herzog é um dos maiores destaques da Mostra Panorama Mundial do Festival do Rio. Sua narrativa foca nas Irmãs Holbrooke, unidas até demais em suas atividades cotidianas e em seu amor aos homens e à natureza. Passando por inúmeras demonstrações de incompreensão sobre seus modos peculiares, ambas iniciam uma busca por um mundo que as aceite como elas são.
Herzog constrói seu conto de fadas torto, mas não menos adorável. Contando com a dedicação total das irmãs Kate e Rooney Mara, ele aborda as protagonistas como princesas de um conto de fadas que buscam uma forma de voltar para a terra a que pertencem, tratando, em seus quadros, as montanhas irlandesas como o berço de um possível portal mágico.
CHUVA ÁCIDA: HISTÓRIAS DO CREPÚSCULO DE CUBATÃO

Exibido na seção Midnight Movies da Mostra Première Brasil, o documentário de Cláudia Pereira segue os relatos de um grupo de ex-funcionários e frequentadores da boate alternativa de Copacabana conhecida como Crepúsculo de Cubatão por sua estética industrial que se assemelhava a uma usina.
Com poucos registros do estabelecimento em funcionamento, a diretora aposta muito nas recordações orais de pessoas influentes que tiveram a boate como ponto de partida, dentre elas atrizes, DJs, estilistas. Porém, apesar de simpático, falta cinema ao projeto. A escassez de material acaba não sendo bem contornada e isso culmina em uma estética de reportagem para o YouTube, que inclui um trabalho de edição bem precário, cometendo erros amadores nos cortes e no próprio tratamento do áudio.
UM DOMINGO

O curta da dupla Maíra Bühler e Rô Albuquerque (esta que também o estrela) chega no Festival do Rio na seção Novos Rumos da Mostra Première Brasil. Acompanha um grupo de amigas travestis que, depois de uma noitada, deve lidar com a ressaca do domingo e com o preocupante fato de que uma delas acabou não voltando para casa.
Foi ótimo contar com a presença do elenco e das diretoras de um curta tão relevante para o cenário político atual do país. Como Albuquerque disse após a sessão, parece um delírio produzir um filme como esse no país que mais mata pessoas trans e travestis e no mês em que o resultado das eleições pode oferecer um quadro de piora nesses dados terríveis. Até por isso, acho que a narrativa funcionaria melhor em um média ou um longa. Seria mais impactante se passássemos mais tempo com o grupo protagonista.
144: APOCALIPSE NÃO

Mais um representante da seção Novos Rumos da Mostra Première Brasil, o documentário de João Paulo Cuenca parte de uma situação pessoal. Após receber 144 processos de pastores evangélicos depois de uma postagem provocativa e agressiva no Twitter, o diretor parte em uma viagem pelo Brasil para conversar com esses tais pastores. Ao longo da jornada, sua missão de provocação acaba transformando-se em um estudo sobre a relação do povo com as diferentes religiões dominantes do país.
Apesar dessa transformação, a abordagem de Cuenca jamais deixa de ser provocativa, como seu tuíte original. Ela só muda o tom da provocação, de algo mais revanchista a algo mais existencial sobre como a situação ambiental do Brasil representa o apocalipse particular de um povo e toda a ironia política que caminha junto, em especial das igrejas evangélicas.