Se no primeiro Halloween Rob Zombie transformava a história de Michael Myers em um expurgo de uma América marcada pela crueldade, aqui ele parece interessado naquilo que sobra depois que essa violência passa pelo corpo, fazendo de Halloween II uma espécie de delírio de trauma e maldade misturados. É talvez um dos filmes mais feios e brutais que vi recentemente, com uma estética suja em que até a escuridão parece contaminada, uma montagem toda picotada que leva violentamente de uma cena para outra e mortes filmadas com uma força bruta quase desagradável de assistir. E se no primeiro eu reclamava da incapacidade de Zombie em construir a presença do Michael através de suspense e atmosfera, aqui essa ausência de elegância parece encontrar uma função mais coerente, porque o filme inteiro está contaminado pela violência que carrega, fazendo com que Michael e Laurie pareçam duas pessoas presas de maneiras diferentes à mesma noite, ele continuando a atravessar o mundo deixando corpos pelo caminho e ela incapaz de sair psicologicamente daquele acontecimento.
O que mais me surpreendeu é como Zombie consegue colocar no mesmo nível de assombro a violência do Michael e a experiência da própria Laurie, com as cenas em que ela grita, briga, se relaciona com as pessoas e tem seus delírios sendo tão perturbadores quanto as próprias matanças. Eu não sou particularmente fã desse cinema de trauma que precisa psicologizar os personagens o tempo inteiro, com terapeutas explicando seus comportamentos e diálogos transformando sofrimento em diagnóstico. No entanto, aqui há algo diferente porque o trauma parece menos uma informação sobre a personagem do que uma coisa experimentada pelo corpo, pela montagem, pelos gritos e pela própria deformação da imagem. O filme não está apenas dizendo que Laurie está traumatizada, ele transforma a experiência de assistir ao filme em alguma coisa igualmente fragmentada e agressiva. Ao mesmo tempo, existe uma América ao redor desses dois personagens que parece incapaz de deixar o trauma simplesmente existir, com Loomis transformando a tragédia em mercadoria e os sobreviventes tentando continuar suas vidas enquanto o acontecimento é continuamente reencenado, explorado e consumido.
Talvez por isso a montagem entre Michael, Laurie e todos os personagens que ficaram presos naquela noite seja tão importante, porque o filme parece menos interessado em construir uma nova ameaça do que em mostrar diferentes maneiras de permanecer dentro da anterior. Michael caminha por Haddonfield como uma espécie de força que não consegue parar, enquanto Laurie vive o acontecimento novamente através de pesadelos, delírios e explosões de violência, até que os dois caminhos inevitavelmente voltam a se encontrar. A dimensão quase fantasiosa do cavalo branco e das aparições da mãe empurra tudo isso para um território muito mais delirante, às vezes até próximo de Lynch, e é justamente aí que Zombie se distancia completamente da tentativa de reproduzir Carpenter que ainda contaminava a segunda metade do primeiro filme.
Ainda fico com bastante pé atrás com a realização, porque a escuridão constante, a câmera instável e a montagem fragmentada muitas vezes tornam as imagens mais turvas do que expressivas, e Zombie continua não tendo a elegância de Carpenter nem uma grande capacidade de construir set pieces de suspense. Mas talvez seja justamente essa feiura que dê ao filme uma coerência que eu não sentia da mesma maneira no anterior, como se a violência do Michael tivesse contaminado a própria matéria cinematográfica e transformado o filme inteiro em uma experiência de decomposição. O resultado continua excessivo, irregular e frequentemente desagradável, mas há algo genuinamente perturbador nessa ideia de que Michael e Laurie não estão simplesmente tentando sobreviver àquela noite, mas continuam vivendo dentro dela, dois corpos traumatizados por uma mesma violência até que a sequência final transforme esse vínculo numa espécie de destruição mútua.