A notícia do falecimento de Val Kilmer logo me trouxe esse filme na cabeça, mesmo que eu  associe mais a sua imagem ao Ice de Top Gun. Minha familiaridade com os filmes do Batman de Christopher Nolan, e também com o longa de Matt Reeves estrelando Robert Pattinson, me tiraram essa associação da cabeça. É muito difícil não pensar em Batman: Eternamente em primeiro lugar quando se recorda a carreira do ator, pois um papel como o Cavaleiro das Trevas é um grande marco dentro da cultura pop. Então é válido dizer que Kilmer sempre será lembrado como um dos Batmans do cinema. Nisso, eu resolvi assistir depois de um certo tempo para confirmar se minha memória desse filme era positiva, pois a noção geral de todos que opinaram sobre ele era majoritariamente negativa.

Joel Schumacher adota uma identidade visual bem hiper estilizada do filme de Tim Burton, apresentando uma Gotham bem sombria, mas também megalomaníaca em suas estruturas e colorida em sua caracterização. E essa estilização extrapolada não é limitada apenas a construção de seu cenário, mas também na aparência e nas encenações de seus personagens. Esses, são abordados de uma maneira quase que cartunesca e exagerada, aderindo muito ao seu estilo de ambientação. O Charada de Jim Carrey em um dos melhores papéis de sua carreira. Todos esses elementos de identidade garantem ao filme uma mise-en-scène muito própria, evidenciando muito essa atmosfera de uma verdadeira história em quadrinhos.

Seu tom é extremamente diferente dos três filmes de Nolan, que aborda toda a sua ambientação e narrativa a partir de uma identidade e uma encenação dramática tipicamente realistas. Schumacher trata seu filme como se fosse uma sátira, mas não uma que busca criticar algo ou subverter a imagem do Homem Morcego, mas sim aderir essa breguice visual e narrativa que circunda os clássicos quadrinhos do herói. O Duas-Caras de Tommy Lee Jones ter duas namoradas, uma completamente caracterizada de branco e a outra toda vestida de forma sombria, é um detalhe que exemplifica bastante essa breguice do filme. Juntamente do vilão de Jim Carrey, completamente baseado nos seus trejeitos de comédia, só que com tons bem ácidos.

O Batman de Val Kilmer também não se desprende dessa ideia, pois assume o papel do super herói dramático dentro desse exagero narrativo. O filme não conta sua origem de forma detalhada como os outros filmes fazem. Se utiliza desse acontecimento como se fosse um episódio mitológico no imaginário dos espectadores, desenvolvendo sua carga traumática e dramática de uma maneira super melodramática. Mas, ainda assim, não foge da abordagem brega do diretor. Sua relação com a Dra Chase (Nicole Kidman) é muito baseada em sua dualidade entre a figura do Batman e a vida de Bruce Wayne, trabalhando de forma bem legal esse drama romântico e psicológico de Bruce, afinal, seu par romântico é uma psicóloga.

O Robin de Chris O’Donnell talvez seja o ponto mais baixo do filme, apesar dele possuir boas cenas e manter um certo carisma como o emergente parceiro do Batman. Mas todo esse arco de Dick se tornando o Menino Prodígio não recebe muita atenção do diretor e da narrativa. Baseia-se apenas em pequenas conversas entre os dois que não formam uma ligação tão profunda, focando muito mais no personagem de Kilmer.

Val Kilmer interpreta dois personagens, um deles sendo o vigilante mascarado que impõe medo aos criminosos e o outro sendo o jovem playboy e traumatizado Bruce Wayne. O longa expõe essa diferença em sua narrativa, mas logo a desconstrói em seu fim, pois Batman e Bruce são apenas um, coexistindo em nome da justiça.