Um Tiro no Escuro (1964) representa um ponto de virada dentro da franquia A Pantera Cor-de-Rosa, dirigida por Blake Edwards. No primeiro filme, o inspetor Jacques Clouseau, interpretado por Peter Sellers, era um coadjuvante de uma história cujo protagonista era um ladrão de joias interpretado por David Niven. A partir dessa sequência, Clouseau passa a se tornar o rosto dos filmes e o protagonista das histórias, o que permite que as obras invistam mais no humor resultante das confusões do personagem.
O primeiro filme parecia não investir tanto na comédia quanto se vendia. Por um lado, isso é interessante, por deixar transparecer um aspecto bastante charmoso e atrativo da obra, que dava maior atenção às interações que poderiam ficar em segundo plano devido à trama de heist movie combinada com uma comédia romântica entre David Niven e Claudia Cardinale. Por outro. também deixa alguns momentos de piada bastante deslocados, enquanto outros são bem aproveitados e proporcionam risos genuínos pela forma como o filme brinca com o gênero policial. Já com Clouseau se tornando o personagem de maior destaque da sequência em diante, o filme expande seu lado cômico, aproximando-se muito do humor físico de Charlie Chaplin e rendendo ótimas situações.
A narrativa, como um todo, é uma história de investigação policial bastante simples e direta ao ponto: um assassinato foi cometido, há uma suspeita provável e é preciso descobrir a verdadeira identidade do culpado para solucionar o caso. Mas, ao mesmo tempo em que a investigação se desenrola, a comédia coloca os personagens em situações ridículas que parecem fazer o andamento do caso retroceder, mesmo que a convicção de Clouseau sobre a inocência da suspeita permaneça inabalável. Isso provoca uma certa angústia, pois ele está apaixonado pela pessoa mais provável de ter cometido o homicídio. Assim, o filme permanece em uma corda bamba de incerteza: há, de fato, profissionalismo por parte de Clouseau ou ele está sabotando a investigação por razões passionais?
Os novos coadjuvantes são bons e funcionam de acordo com o que o longa propõe. A personagem suspeita e interesse amoroso de Clouseau, interpretada por Elke Sommer, contribui muito para o mistério da trama. Ela interage e fala em certos momentos de maneira um pouco assustada ou contida, fazendo com que não se saiba ao certo se tem medo de ser incriminada ou se realmente esconde alguma coisa. Mas, entre os personagens secundários, o grande destaque é, sem dúvidas, o inspetor-chefe Charles Dreyfus, interpretado por Herbert Lom. A maneira extremamente irada e enlouquecida como ele reage às trapalhadas de Clouseau impulsiona a comédia do filme, tornando o protagonista ainda mais idiota e as cenas mais engraçadas, além de organizá-las em um timing muito bem acertado.
Como um todo, Um Tiro no Escuro é uma evolução bastante considerável, aprimorando muito do que já havia sido abordado no clássico lançado um ano antes. Trata-se de uma história direta ao ponto, sem muitas subtramas paralelas, e que funciona muito bem como um filme isolado, sem depender do seu antecessor.