Estou escrevendo essa crítica sem conhecer nenhuma outra obra do diretor Paolo Sorrentino, apenas com uma pequena noção sobre as temáticas abordadas em seus filmes. Reflexões e meditações acerca da vida e das relações entre indivíduos de diferentes gerações, mas não em questões familiares ou políticas, mas sim amorosas, não sendo muito diferente em Parthenope. O longa narra a história de uma menina nascida nas águas de Nápoles – a cidade que inclusive recebe uma grande fascinação pelo diretor, sendo esse filme uma grande carta de amor a ela – que é nomeada de Parthenope por seu padrinho. A menina cresce e se torna quase que uma força mística e sobrenatural pela sua sensualidade e beleza, uma personagem transformada em uma ídola sagrada por Sorrentino.

Partenope, para aqueles que não conhecem a história por trás do nome da protagonista, era uma das sirenas (nome grego para sereia) que teria sido uma das fundadoras lendárias da cidade de Nápoles, uma figura mítica e sedutora que enfeitiçava os marinheiros com seu canto sedutor. A Parthenope de Sorrentino, interpretada pela belíssima Celeste Della Porta, é retratada como uma verdadeira sereia andando sobre duas pernas, onde o diretor concede uma aura quase que sobrenatural ao lidar com a imagem apaixonante da personagem, possuindo uma habilidade de encantamento para aqueles que a rodeiam. Esse efeito não apenas se reflete naqueles que vivem em volta de Parthenope, mas também naqueles que a veem pela câmera de Sorrentino, pois o diretor a filma como uma figura mítica e idealizada, seus olhares, suas expressões corporais, tudo é exaltado em sua imagem.

Junto dessa ótica quase que fetichista de sua personagem, o longa busca contar suas vivências amorosas de uma forma que tudo soa como um poema erótico e romântico, mesmo que Sorrentino não sustente essa constante dramática e sensual ao longo das mais de duas horas que o filme narra sua história. Existem alguns momentos que fica evidente como o diretor teve certa dificuldade em manter suas características autorais e narrativas, como, por exemplo, na sequência em que Parthenope tenta se tornar atriz. Apesar de possuir certas sequências que representam bem a intenção artística do diretor em abordar as diferentes faces da cidade de Nápoles, isso parece ser um pouco avulso do resto do filme, este que ganha mais força quando foca nas relações sexuais conturbadas de sua protagonista.

Falando na cidade de Nápoles, ela é como um personagem dentro do filme, onde é retratada como um paraíso do amor em meio a terra. Torna-se um detalhe que garante as melhores partes contemplativas e sensoriais na história, como se as noites na cidade funcionassem como rituais coletivos de amor e sexo para aqueles que a adentram, e como já esperado, a vida noturna e sexual de Parthenope. É a partir dessas abordagens que Sorrentino consegue enquadrar cenas belíssimas das costas marítimas da cidade, onde o mar se torna sempre uma presença mística para todos os acontecimentos do longa.

Ao seguir a lógica de seus últimos filmes, a protagonista se relaciona, em maior parte, com homens bem mais velhos que ela. Eles acabam virando alvo de reflexões que a garota possui sobre sua capacidade de encantamento sobre os homens. Isso se torna até simbólico em alguns momentos, que chega a transitar entre um fetichismo do diretor em abordar a sexualidade feminina aos olhos masculinos, e metáforas relacionadas aos atos sexuais, íntimos e até sobrenaturais que Parthenope se envolve, mesmo que esse lado místico do filme nunca ganhe uma verdadeira força.

Parthenope é um filme que almeja muita coisa. Entre dirigir uma carta de amor a uma região histórica e mágica ou desenhar a imagem de uma mulher que se assemelha a uma figura mitológica e sensual, o filme acaba por não construir muita coisa a partir dessas ideias. Por fim, ele acaba se tornando um belo filme contemplativo, com pouca profundidade de narrativa.