TEMPO À FACA

O filme escrito por Ruy Guerra apresenta duas narrativas paralelas: a primeira com a jovem Neta, viajando em um conversível antigo pelo sertão até a Paraíba em busca de uma vingança; a segunda acompanha Deodato, caminhando pelas mesmas paisagens — e aparentemente na mesma direção que Neta — para entregar um vestido de noiva para a filha, Núbia.

Enquanto Neta desvia-se da rota encontrando uma alternativa à morte, Deodato vai de bom grado ao encontro desta, sabendo que está jurado de morte no local de seu destino. A paisagem mistura céu nublado acinzentado com vegetação bege por conta da seca e personagens vestindo preto ou cores neutras, criando um ambiente em que os tons de vermelho, não por acaso, se destacam.

Tempo à Faca

DESCARRILHO

O filme de Aline Gutierres imagina um mundo alternativo simétrico e colorido, mas no qual as pessoas usam moletons sem cor e comem sem prazer, têm conversas inexpressivas e trabalhos maçantes e repetitivos. É neste lugar que Renata começa a ter lembranças de uma mulher com olhos amarelos com quem ela conversou um dia em uma festa e fica obcecada em encontrá-la novamente para saber o porquê de não conseguir esquecer-se mais da moça.

O destaque do curta é o design de produção, que consegue criar um ambiente com uma estética futurista vintage ao mesmo tempo bonitinha e perturbadora. Há uma inquietude permanente na protagonista, que parece sob vigilância constante, e essa tensão é refletida em todo o contexto imagético do filme. A diretora explica que foi inspirada por suas próprias vulnerabilidades e angústias como mulher queer.

Descarrilho

CANA

O título do filme está se referindo ao mesmo tempo à planta, que circunda a rodovia em que os protagonistas estão viajando, bem como à gíria relacionada a polícia e prisão. No curta de Daniel Rone e Guilherme Xavier Ribeiro, dois rapazes conversam sobre medos e esperanças em uma caminhonete pelo oeste de São Paulo, porém, ao se depararem no radar com uma blitz policial, eles param em um vilarejo habitado somente por um grupo de crianças. Os jovens agora devem decidir como irão passar pelo bloqueio.

A dúvida, a espera e toda a situação envolvendo as crianças é angustiante. A todo tempo parece que alguma coisa será gatilho para um desfecho trágico e desastroso, da mesma forma que não há uma solução óbvia ou sensata para o impasse sobre seguir adiante. Assim, o curta consegue manter a sensação de aflição até o último momento.

Cana

TODO O SENTIMENTO

Uma continuação metalinguística do longa de 2018, Ilha, dos mesmos diretores, Ary Rosa e Glenda Nicácio, qu imagina como seria o mundo para os homossexuais caso a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 fosse bem sucedida. Henrique, o mesmo do filme anterior, agora é ex-diretor de cinema e cadeirante recluso, morador de uma casa colonial na Bahia. A paz do homem é abalada com a chegada de Gustavo, contratado pelo amigo, Ary, para auxiliar o ex-cineasta nas tarefas cotidianas.

O longa apresenta o futuro alternativo por meio de programas de TV escrachados e nada sutis em suas críticas (um pouco ingênuas) às figuras do conservadorismo brasileiro. Porém, ao mesmo tempo, cria uma narrativa quieta sobre a resistência de pessoas marginalizadas em meio a adversidades que não parecem conversar muito bem entre si.

Todo o Sentimento