MULHERES DO BANDO

O primeiro dia da Mostra Caleidoscópio abre com a estreia na direção de Thamires Vieira em um filme gravado ainda na pandemia, que é um resgate das histórias do Bando de Teatro Olodum, com seus mais de 30 anos de existência. Com uma mistura de relatos pessoais e a preparação de personagens para um espetáculo, realidade e ficção são mescladas inicialmente construindo uma espécie de Jogo de Cena. Em seguida, as danças e a preparação do corpo são o foco narrativo, bem como as histórias das mulheres do passado que construíram a companhia de teatro.

Por fim, com uma fotografia em preto e branco, sentada em um palco, Rejane Maia, uma das atrizes veteranas, relembra e exalta a evolução da união das mulheres negras da Bahia. Guerreiras galgando espaço em locais que não as valorizam como artistas que são.

Mulheres do Bando

HACKER LEONILIA

Na abertura da Mostra Brasília, o diretor Gustavo Fontele Dourado se manifestou contra o uso da inteligência artificial na animação e exaltou os artistas da área. Em seu curta, ele homenageia a sua avó, Leonilia, reimaginando-a como uma hacker que usa o bordado para navegar em um mundo virtual criado para manter viva a mente de pessoas já falecidas.

Este local não é benéfico para seus habitantes, com uma infinidade de glitches e regras rígidas, além de não permitir o contato exterior. Assim, neste lugar “meio Black Mirror”, Leonilia decide usar suas habilidades para escapar e entrar em contato com a tataraneta. A animação é bem inventiva ao imaginar este futuro distópico e principalmente em dar o protagonismo para intrépidas senhorinhas, mas, talvez por conta da duração, a construção de mundo fica corrida e confusa.

Hacker Leonilia

AMADEO E O HIPOTÉTICO MUNDO NOVO

Uma animação que vai até o Brasil do século XIX para contar a história de um inventor sequestrado ainda menino na Guiné-Bissau e levado para Portugal, onde foi libertado pelos soldados de Napoleão e adotado por um cientista mulçumano. De acordo com a diretora Brenda Lígia, este era um filme que ela gostaria de ter assistido quando criança.

Amadeo, o inventor, chega ao Brasil, com seu cãozinho, após uma tragédia, e aqui é incorporado a um grupo de artistas de rua que reúne os mais diversos tipos de personalidades e corpos – a Trupe dos Maquiados. A partir daí, ele passa por um processo de reconciliação com o passado, ao mesmo tempo que recebe acolhimento e desenvolve ideias para o futuro. Uma delas sendo uma inovação grandiosa o suficiente para selar o seu destino como inventor e ainda mudar a vida de outras pessoas como ele – a fotografia.

Amadeo e o Hipotético Mundo Novo

FUNDURA

O traço de Catapreta, que além fazer a arte também dirige e roteiriza esta animação, é muito marcante. Seus desenhos parecem tortos, por vezes inacabados, mas completamente intencionais e de uma expressividade que vai além dos rostos e das cores escolhidas.

O filme não tem diálogos, e nem precisa. As ilustrações arrepiantes e a trilha sonora, com o grave marcado, trazem a sensação de inquietude necessária para acompanhar a jornada transcendental do jovem protagonista. No início o vemos atravessar o espaço entre a vida e a morte – marcado pelo preto e vermelho em contraste com linhas brancas – e em seguida ser resgatado pelas rezas de uma mãe de santo e por uma força ancestral. Esta força irá acompanhá-lo e protegê-lo posteriormente, quando é atacado por causa de seu trabalho como segurança de boate.

Fundura

CIDÃO

No dia 1º de Maio de 1981 a diretora Alê Gama perdeu seu pai, assassinado enquanto ía para uma comemoração do dia do trabalho, com a carteira de trabalho no bolso. Mais de quarenta anos depois, ela decide resgatar fragmentos de histórias e memórias sobre o pai, com quem conviveu por somente três anos de sua vida.

O curta mistura imagens de uma mesa de santo posta, exposta a mudanças do clima, com fotografias antigas de Cidão e notícias da época, como os jogos da Ponte Preta, time do coração do pai de Alê. Dessa forma, os poucos vestígios que restaram são reunidos para dar mais sentido ao luto tardio por uma vida ceifada precocemente, mas, além disso, também pauta a questão das vidas negras que são levadas sem motivo aparente e que deixam feridas abertas por não haver justiça ou algum tipo de desfecho para seus casos.

Cidão

TUDO É TEMPO

O documentário de Marcos Guttmann levou mais de 20 anos para ser concluído e por isso traz um panorama interessante sobre o pensamento do brasileiro médio sobre o Lula, a partir de uma amostragem de quatro personagens: Carlos, Cristina, Fernando e Heber.

Com conversas anuais, Marcos acompanha as pessoas durante todo o primeiro mandato de Lula, desde as eleições de 2002, a fim de entender quais foram as mudanças significativas na vida de cada um. Porém, ao notar que muito pouco havia mudado, ele guarda o material e retoma apenas após a ascensão da extrema direita no Brasil, entrevistando novamente os quatro, com quem manteve contato neste tempo todo, nas eleições de 2022. As conversas são espetaculares e surpreendentes, o diretor consegue capturar com muita naturalidade a essência de cada um, todos muito diferentes, bem como a diferença desses Brasis, de 2002 e 2022.

Tudo é Tempo