Um dos grandes males que o moralismo nas artes nos proporcionou — e que, desde que surgiu e foi cooptado por aqueles que tratam o labor artístico com intenções meramente mercadológicas, passou a ser disseminado por todos os cantos com um alcance nunca antes visto — é a concepção negativa da representação do sexo no cinema.

Na verdade, acredito que o sexo seja apenas a extremação desse movimento, o que não significa que ele não esteja presente em outros âmbitos. Veja como o público geral reage à cenas de nudez, por exemplo: mesmo sem envolver erotismo, desejo ou qualquer coisa parecida, a recepção do espectador ao ver um corpo nu em tela já é, por si só, encarada como ruim; como algo a ser evitado.

Adorno já nos disse que a indústria cultural (e não só a cinematográfica) preza pela confecção de produtos artísticos que, acima de tudo, satisfaçam aqueles que os compram (e aqui, o “satisfazer” não tem pretensão sexual e/ou escopofílica, mas meramente econômica). Como indústria, ela usa todos os seus aparatos midiáticos (notícias, anúncios, comerciais, vídeos, etc.) para criar uma determinada demanda de consumo na população. Com a demanda criada, ela mesma faz o produto e o vende a essa população, que já não é mais vista como apreciadora de arte, e sim reduzida e desvirtuada na figura de consumidora.

Com isso, esse indivíduo-consumidor passa, agora, a tratar a arte como trata qualquer ferramenta de prestação de serviços. Tal obra só é boa se faz parte do que eu acredito, se concordar com o meu alinhamento político, se não tiver palavrões, se não tocar em certos assuntos polêmicos… e por aí vai. De tanto estar acostumado com a satisfação que a obra de arte o confere enquanto consumidor, o indivíduo (influenciado por esse mundo que tem como objetivo absoluto o lucro) vai, aos poucos, se afastando de um dos papéis mais importantes da arte, que é justamente essa abertura à reflexão, esse convite a deixar suas convicções pessoais/morais de lado e, por um curto período de tempo, entrar em contato com realidades e ideias diferentes das de seus espectadores.

A visão negativa que se tem do sexo na arte é, acima de tudo, criada a partir de determinados interesses. Logo, os moralistas e críticos de sua representação no cinema acabam perdendo de conhecer vários filmes muito interessantes (tematicamente ou formalmente), como as chanchadas nacionais, o Cinema Marginal e a Boca do Lixo por inteira. O filme a que esse texto se refere, Excitação, pode ser um grande exemplo disso.

Enquanto eu o assistia, não pude deixar de notar como Garret parece tecer um comentário curioso sobre a dicotomia entre a racionalidade e a irracionalidade; material e metafísico. Pensei nisso porque o filme todo encara esse mundo ordenado, feito por mãos humanas e a partir da modernização, de uma maneira condenatória.

Helena, a protagonista, não é assombrada por pessoas ou animais, mas por seus eletrodomésticos. Objetos como o chuveiro, sua televisão, seu liquidificador e o ventilador da sala são os que a perseguem e a amedrontam. Nas cenas em que é atacada por por essas ferramentas do cotidiano, ela é enclausurada no plano, enquanto que aquele que a persegue é filmado como algo, de fato, monstruoso. O plano-detalhe no chuveiro, por exemplo, é muito poderoso. Intercalando com imagens dela tomando banho, ele vai soltando mais fumaça e, aos poucos, ganhando contornos mais misteriosos e dúbios.

Seu marido, que a trai com as outras duas personagens principais e que não se importa com a esposa, trabalha fazendo computadores, máquinas que, essencialmente, não possuem elementos fantasiosos ou fantásticos — “Gostei do que disse porque, na minha profissão, tudo é precisão e lógica. Você vive em outro plano… em poesia.” Ele diz isso a uma das personagens em determinada cena, bem no começo. Ele mesmo confessa que a razão é mais presente em sua vida do que qualquer outra coisa.

Esse mundo é colocado em cheque (e é aí que o filme incorpora seu discurso na mise-en-scène) com o mar ao frente da casa. Se, rodeada por aparelhos, a câmera não tinha profundidade de espaço ao filmar esses ambientes caseiros, no mar, isso não existe mais. A trilha sonora setentista cheia de sintetizadores, a iluminação, os planos e o modo que os atores dialogam entre si transformam esse espaço em algo quase onírico. Parece que o que estamos vendo em tela é, na verdade, um sonho.

O mundo moderno é esse lugar hostil que enclausura até a mente de seus indivíduos, até um ponto em que a fantasia não encontra mais espaço para se manifestar, a não ser de maneira punitiva. Porém, o final acrescentou mais um assunto nessa minha compreensão: descobrimos que essas alucinações de Helena eram fruto de um computador feito pelo seu marido. Todo o apuros que ela passou naquela casa havia sido programado.

O filme continua falando sobre conflitos de razão mas, dentro desse meio, ele encontra espaço para discutir o corpo feminino e como ele é o objetificado, acima de tudo, pelo desejo. O marido de Helena não fazia sexo com ela porque ele não poderia tirar proveito algum disso; em contrapartida, ele busca essa intimidade com a sua vizinha e a prima dela porque isso seria útil para ele, em algum momento.

O sexo, aqui, é a ferramenta de controle das relações de gênero. Tomado de utilitarismo e pragmatismo (carácteristicas advindas da racionalidade) ele é feito a partir da vontade daquele que detém o poder do olhar e do prazer da escopofilia (e nós sabemos que, historicamente, aqueles que detém o poder do olhar são específicamente os homens) de se aproveitar do corpo feminino.

Os planos que sufocam a protagonista em sua casa representam, também, a dominação masculina; o corpo não passa de um objeto; o sexo e o desejo são sucateados e cedem ao interesse.

E ainda virão dizer que esse é um filme ruim só pelos corpos nus…