Logo depois da sessão eu fiquei curioso para assistir a outra cinebiografia musical de James Mangold, o longa de 2005 Johnny e June. Mesmo tendo uma reação positiva ao filme, não tive muitas surpresas em relação a abordagem do diretor em contar a história de Johnny Cash em sua carreira musical e sua relação conturbada com June Carter, se utilizando de uma estrutura narrativa bem básica de ascensão, sucesso e decadência, explorando desde sua infância traumática até seu auge como músico icônico, possuindo suas melhores partes quando focam suas câmera no romance entre os dois protagonistas, mas que ainda sim se revela como um biopic bem padrão, apesar de bem realizada em certos pontos.

Partindo para outra direção em 2024, Um Completo Desconhecido abandona uma grande parte dessas convenções clássicas do gênero, tratando a imagem de Bob Dylan (Timothée Chalamet) como um fenômeno e ícone da música, concedendo espaço narrativo para sua vida como artista musical e para sua persona revolucionário nesse meio. Isso se evidencia logo na primeira cena do filme, quando Dylan chega a cidade de Nova York na traseira de um carro carona, desenvolvendo todo esse início da narrativa como o começo de uma jornada artística do personagem, sem tratá-lo de uma forma clássica ao explorar seu passado antes da fama, um pequeno processo de desumanização de sua imagem em prol de, a partir de uma forma constante durante todo o filme, torná-lo uma figura caricata e icônica com músico, uma abordagem crua de sua história.

Mesmo que isso possa soar como uma má construção narrativa, Mangold é minucioso em desenhar essa persona quase mística de Dylan ao longo de seu filme, isso se tornando mais evidente conforme o sucesso de sua música alcança uma grande quantidade de um público nichado do folk, até a sua fase na carreira em que procurou se reinventar musicalmente. Esse conflito, quase ideológico, entre o conservadorismo do folk e o progressismo do rock and roll, emergente nos Estados Unidos no final dos anos 50, se torna umas das principais pontas narrativas desse filme, sendo ela o principal arco que evolui o personagem e Dylan durante o filme, isso além dos ótimos personagens secundários que compõem sua persona artística. Não há espaço para a pessoa intrínseca do cantor, apenas para o artista mítico.

A mística do filme em volta de seu protagonista fica evidente nos diversos momentos em que a sutileza de Mangold sugere um certo fascínio do diretor por sua imagem, além de por suas músicas em primeiro plano para expressar certas ideias narrativas, como na cena de apresentação de The Times They Are a-Changin’, uma canção que narra as mudanças sociais e políticas do mundo durante os anos 60, mas que também transmite certas mudanças na vida amorosa e na carreira musical de Bob Dylan, sobre como seu caráter rebelde e controverso dentro da música iria levá-lo a se tornar uma lenda, mesmo que ainda não soubesse disso.

Um Completo Desconhecido se revela como uma biopic que, apesar de não apresentar conceitos narrativos e estéticos próprios e diferenciados, consegue transmitir esse deslumbramento do diretor pela imagem de um dos grandes artistas musicais da história, e como sua pessoa é tratada com uma aura de encantamento e fascínio, como se Bob Dylan fosse um fenômeno, um fenômeno natural da arte.