Depois de trilhar um longo caminho por diversos festivais, estreia nesta quinta-feira (24) nos cinemas brasileiros o primeiro longa da diretora Priscilla Kellen, colaboradora frequente de Alê Abreu, diretor do premiado O Menino e o Mundo (2013). Papaya é uma animação brasileira com uma protagonista curiosa: uma semente de mamão que cai do pé e sonha em voar, se recusando a criar raízes naquele lugar.

Extremamente vibrante, com cores saturadas contrastantes e desenhos cheios de estampa e texturas (especialmente das paisagens), a animação é bem impactante. Apesar de ser um 2D chapado, sem sombreados e sem pretensão de ser naturalista, os ambientes e personagens são muito vívidos e a profundidade de campo é percebida pelo próprio jogo de cores. A opção por uma personagem preta em meio a tantas cores também contribui para marcar essa diferenciação e evidenciar mais ainda o colorido. Do mesmo modo, o design permite bastante expressividade nos olhos e na fisicalidade da semente protagonista, aspecto que ganha relevância dada a ausência de diálogos.

Para além da bela animação, a trilha sonora é notável e complementa perfeitamente os visuais. A música tem uma sonoridade que remete a ritmos do norte e nordeste, conjuntamente a um tema recorrente (leitmotiv) feito por um instrumento de sopro sempre que a sementinha aprende algo novo e avança para uma próxima etapa de sua jornada. Essa sonoridade une-se ao visual para compor uma narrativa que passeia por diversos temas que vão de questões pessoais até assuntos sociais, como o pertencimento e a proteção do meio ambiente.

No início, fica evidente a relutância da semente em enraizar, em virtude do seu desejo de conhecer o mundo e encontrar um lugar para chamar de seu. Depois aborda-se a hostilidade da própria natureza seguida dos perigos da cidade e dos locais sujos e quentes construídos pelos humanos. Ademais, o filme também mostra os diferentes papéis desempenhados na natureza: os pássaros na dispersão das sementes, os insetos polinizadores, a rede interna de troca de energia das árvores com os cogumelos — que funcionam como fonte de nutrientes e conexão entre elas — etc. Na parte humana, acinzentada, ganha foco o lixo, o ecossistema dos esgotos e uma fábrica de alimentos que retira o mamão do pé, descartando o que não precisa, injetando algum tipo de conservante e colocando as frutas em uma caixa para venda. Dessa forma, todo o processo de nascimento e “morte” dos alimentos é ilustrado na animação sob a perspectiva da sementinha.

Esse caráter mais educativo talvez seja o que tirou um pouco do meu interesse na narrativa, já que a torna previsível e sem um conflito definido, ainda que a personagem tenha suas motivações — voar e não enraizar facilmente — e isso ser o que move a trama. Por outro lado, entendo que, provavelmente, o filme foi feito com um público infantil em mente e, por isso, é justificável a mensagem ser passada de maneira lúdica.

Tendo visto tantas animações brasileiras recentemente, fico bastante feliz com o volume de produções nacional e com a variedade de propostas e de designs dos artistas. Papaya é mais uma que tem a brasilidade em sua premissa, apesar de abordar temas universais, e um visual bastante único e especial, que também tem muito a ver com o nosso país.