Para aproveitar a moda lucrativa de sequências de filmes lançados há mais de 20 anos e com um grupinho de fãs fiéis, Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor chega como uma continuação direta do longa original. Além disso, também é uma adaptação de The Book of Magic, de Alice Hoffman, lançado em 2021: a sequência de Practical Magic, de 1995, livro que serviu de base para o filme Da Magia à Sedução (Dunne, 1998).
Passados 25 anos desde os acontecimentos da história original, Sally (Sandra Bullock) e Gilly (Nicole Kidman) devem correr contra o tempo para quebrar a maldição da família Owens antes que o namorado de Kylie, umas das filhas de Sally, seja mais uma vítima. Não há uma tentativa de estabelecer uma “passagem de bastão” para uma nova geração, o foco ainda é nas duas irmãs, na conexão entre elas e nos novos desafios que chegam com o envelhecimento e amadurecimento.
Entretanto, assim como no primeiro filme, não é só isso. A trama paralela de romance é a mesma, agora com Lee Pace fazendo o papel do bruxo Ian Wright, interesse romântico de Sally. Além disso, a diferença entre magia boa e “magia das trevas” (e seus malefícios) é novamente abordada. A narrativa muda de tom conforme o necessário — da mesma forma que na história original — mas, dessa vez, tem uma divisão muito clara em três blocos distintos, quase como episódios de uma série, englobando os eixos da família, do romance e da magia.
O primeiro define o papel de cada personagem dentro deste núcleo. Para isso, acompanhamos os preparativos do aniversário da tia Bridget (Dianne Wiest), e descobrimos que o segundo esposo de Sally também faleceu — o policial Gary (Aidan Quinn) do primeiro filme —. Portanto, a maldição da família não foi quebrada e, para evitar o sofrimento das filhas, Sally apaga a memória das duas meninas e deixa de usar seus poderes. Assim, agora jovens adultas, Kylie (Joey King) e Antonia (Maisie Williams), chegam para a comemoração. Com todas as seis mulheres da família — as duas tias, as duas irmãs e as duas filhas —, o legado e a história das Owens é estabelecido. Este segmento se encerra com Kylie saíndo de lá para quebrar a maldição e salvar o namorado acidentado.
Apesar de não ter uma divisão específica, a segunda parte inicia quando Sally e Gilly viajam para procurar a garota e precisam da ajuda de Ian Wright. Aqui, a história muda de uma dramédia familiar para uma comédia romântica. O foco passa a ser o flerte e a conexão entre o casal Ian e Sally, bem como a ideia de que este sim é um homem mais forte, decidido e bem resolvido com as questões de bruxaria do que os dois antecessores (não à toa escalaram Lee Pace para o papel). Também é o trecho em que estão as piadinhas mais esdrúxulas, como Gilly levando duas malas enormes para uma viagem curta e cheia de escadas para subir e descer.
A última parte é a mais gótica e mágica das três. Nela, as Owens precisam se unir contra uma ameaça poderosa e violenta, que tenta usar um poder ancestral contra elas. Esse é o trecho em que se discute um pouco mais sobre as tradições e história dos antepassados da família, temas interessantes que poderiam ser melhor desenvolvidos ao longo do restante da duração, porém ficam relegados a poucas imagens de flashback e diálogos expositivos.
No fim das contas, a divisão em três segmentos torna o filme mais coerente em ritmo e em tom do que o primeiro. Porém isso também gera um repeteco de temas que o deixa monótono e extremamente previsível. Além disso, os elementos novos da trama não parecem ter muita importância; servindo como exemplo a adição de mais pessoas que conseguem usar magia e o contexto disso, porque parte do pressuposto de que é algo que pode ser ensinado e não é hereditário, como o primeiro longa sugere. Embora a bruxaria não seja exatamente o foco narrativo principal, parece uma oportunidade perdida de elevar o elemento fantástico desse universo.
A conexão entre Sally e Gilly é o destaque do antecessor e, portanto, é a escolha natural para que seja o centro da trama novamente. O problema é que elas aparentam estar no mesmo lugar de 25 anos atrás, em que Sally é a certinha, viúva, dona de casa, frustrada com a magia e que acaba envolvida em um relacionamento amoroso; e Gilly é a maluquinha, não tem lugar ou homem fixos, adora usar mágica e não pensa antes de falar. Também é mantido o protagonismo da primeira, que passa por um arco de personagem no qual precisa fazer as pazes com a bruxaria e a outra funciona como um porto seguro para que a protagonista consiga alcançar seus objetivos. Isso é uma pena, pois Sally já teve o desenvolvimento dela naquela primeira vez, não tem motivo para ela passar pelas mesmas questões novamente. Enquanto isso, Gilly parece estagnada como uma manic pixie dream girl da irmã deprimida, sem uma história própria.
Outros dois aspectos que fazem o primeiro filme ser tão querido são a sororidade, especialmente na sequência final; e a estética whimsigoth, que estava em alta na época entre as garotas alternativas, e cuja denominação é recente, mas a ideia é a mistura de algo bucólico, boêmio, excêntrico e trevoso — na linha de Stevie Nicks ou Florence Welch (que também são parte da ótima trilha sonora). Por causa disso, existe um certo aconchego no longa dos anos 90 que não existe neste. Não tem mais a mudança de mentalidade das mulheres da cidade e a união de todas contra um mal comum, é uma questão somente do núcleo familiar. Quanto à estética, esta se mantém nos figurinos e local do embate final, no entanto, durante um bom tempo, os cenários e a iluminação são limpos demais, até quando estão em jardins, sem a meia luz e os contrastes que criam a sensação de algo misterioso.
O resultado final é positivo ao compartilhar diversos méritos com seu antecessor, sendo essa repetição, paralelamente, também a pior característica da obra. Eu cheguei a me emocionar em alguns momentos, especialmente naqueles que abordam a relação com as tias. Por outro lado, apesar de ter uma direção mais coesa, acrescentar bons coadjuvantes e manter o que fez o original ser muito querido, ainda peca ao se contentar com a repetição dos temas, não desenvolver realmente as personagens para além do que já tinha sido feito, e não dar mais espaço para a Gilly de Nicole Kidman, a melhor atriz do filme.