Eu lembro até hoje quando assisti Avatar pela primeira vez no cinema em 2009, no auge dos meus sete anos de idade, e acredito que aquele momento serviu como um dos pilares da minha cinefilia. Foi um baque tanto narrativo quanto visual, um fascínio que, até esse ponto, eu nunca havia sentido antes, pois ver Pandora receber vida quase que de maneira totalmente naturalista, talvez seja um dos grandes eventos da história da ficção científica.
No plano estético e técnico, Avatar redefiniu os limites do cinema digital, com James Cameron desenvolvendo e popularizando tecnologias de captura de movimento avançada, 3D estereoscópico (que inclusive foi a escolha do formato de exibição da cabine de imprensa) e mundos inteiramente gerados por computador com um nível de imersão nunca vista antes. Pandora não é apenas um cenário, mas sim o ápice da fantasia visual no cinema, um ecossistema coerente, com flora, fauna e linguagens próprias, reforçando a ideia de um “mundo vivo”. O uso do 3D não é apenas um truque, mas parte da construção sensorial da experiência.
Narrativamente, Avatar dialoga com mitos e estruturas clássicas: a jornada do herói, o romance entre mundos opostos, e histórias de “conversão” moral e filosófica de um herói como Dança com Lobos ou Pocahontas. O que distingue o filme é a maneira como Cameron lida com esses arquétipos em uma chave abertamente ecopolítica. A relação orgânica dos Na’vi com Eywa, a força vital que conecta todos os seres de Pandora, contrasta com a lógica extrativista, militarizada e instrumental da humanidade, funcionando como uma crítica direta ao capitalismo predatório e à devastação ambiental.
Essencialmente, Avatar: Fogo e Cinzas continua a aprofundar o arco dramático da família Sully, algo que serviu também como base do segundo filme da franquia Avatar: O Caminho da Água, sobrepondo essa temática central ao imperialismo humano. Cameron constrói o drama a partir da relação de Jake (Sam Worthington) e Neyriti (Zoe Saldaña) com seus três filhos sobreviventes, ainda remoendo a morte de seu filho mais velho Neteyam no capítulo anterior. O filme trata a paternidade dos dois não de forma heroica, mas como uma vulnerabilidade emocional que os quebra por dentro, Jake transfere a culpa da perda de seu primogênito para seu segundo filho Lo’ak (Britain Dalton), enquanto Neyriti tentar lidar com seu ódio pela raça humana, e consequentemente pelo seus filhos mestiços. Essa mudança dá ao filme um tom mais melancólico e emocional, especialmente em comparação ao caráter mais aventureiro do primeiro Avatar.
O principal e talvez único problema desse longa talvez seja a abordagem de Cameron em relação a tribo do fogo, onde Varang (Oona Chaplin), a líder da tribo e nova vilã da franquia, se torna uma personagem bem mal aproveitada, servindo mais como um recurso narrativo para o Coronel Quadritch (Stephen Lang), que neste capítulo passa por uma transformação moral e existencial, muito por conta de sua relação extremamente conturbada com Spider (Jack Champion), seu filho humano que vive entre os nativos do planeta, se tornando de maneira abrupta o centro da guerra pelo controle do planeta.
Como se percebe, James Cameron aposta alto nas características épicas de sua história, entrelaçando o arco pessoal e intrínseco de todos os seus personagens. O longa então se assume como capítulo intermediário, não buscando finalizar as várias narrativas desse universo, mas sim estabelecer um universo que foi planejado para cinco filmes. Mesmo que essa escala narrativa gigantesca crie alguns problemas na coerência entre os arcos, pois como mencionei antes, Cameron busca desenvolver uma gama de personagens em meio a um cenário de conflito moral e armado total, algo que no resultado pode soar apressado no último ato do filme, mas que não diminui o espetáculo visual que todo o filme oferece.
Avatar: Fogo e Cinzas então dá continuidade a narrativa homérica de Jake Sully, que aqui é retirado do posto de protagonista central, isso para dar lugar a um grande drama familiar e conflituoso, enquanto Pandora vive ao fundo, mundo trazido a vida pela mente de um diretor que enxerga como a fantasia pode ser libertadora para contar histórias.