O “B” em LGBT+ Não É Biscoito: Filmes com Personagens Bissexuais
A representação da bissexualidade (e, por extensão, da pansexualidade) ainda é escassa em filmes, mesmo com uma evolução na conversa sobre diversidade de vivências. É difícil presumir que algum personagem é bissexual se ele não falar “Sou bissexual!”, pois uma pessoa que sente atração por mais de um gênero não precisa necessariamente ter um relacionamento com todos. Da mesma forma que por muito tempo pessoas homossexuais tiveram que manter relacionamentos heteronormativos como aparências, tendo até filhos, mas não se identificando como bissexuais. Também vale ressaltar que há uma dificuldade comercial de vender esses personagens para pessoas heterossexuais sem explicações do que é a bissexualidade para além de preconceitos e clichês, é como se não pudessem apenas ser.
Nos filmes que selecionamos, há personagens que usam a bissexualidade para conseguir vantagens, pessoas que se entendiam como heterossexual ou homossexual e passam por um momento de descoberta e outros que aparentemente sempre souberam que eram bissexuais. A dificuldade em montar a lista foi fugir de representações fetichizadas ou apenas sexuais, bem como aquelas apenas figurativas. Para além da representatividade, são filmes que recomendamos por diversas qualidades.

Teorema
Aqui o sexo é a libertação da consciência humana frente a uma sociedade estruturada em prol da alienação, do desconhecimento do seu eu e do seu sentido de viver. A burguesia é uma classe alta e privilegiada, destituída de um real senso de humanidade e das relações humanas, que se reflete em hábitos extremamente moralistas que constroem uma sociedade castrada, estéril e carente de sentimento. Quando o sexo adentra em toda a burguesia, ela entra em colapso e não se reconhece mais como tal. Encontrando sua humanidade, são tomados pela crise ao perceberem sua inutilidade como classe fútil e soberba e, pouco a pouco, se destroem quando a consciência os leva à loucura.

Cabaret
A Alemanha pós-Primeira Guerra Mundial e antes da ascensão do partido nazista era um lugar conhecido pela liberdade sexual. Muitos homossexuais e transgêneros viviam e iam morar lá por ser um lugar acolhedor, embora decadente. É nesse cenário que a história de Cabaret se desenvolve, quando o jovem britânico, recém chegado ao país, Brian Roberts, se envolve com a cantora de cabaré Sally Bowles e com o barão Maximilian von Heune. No entanto a sensação de tensão e perigo paira no ar, quando aos poucos começam a frequentar o local os membros do partido nazista.

Eu, Tu, Ele, Ela
Com Eu, Tu, Ele, Ela, Akerman busca uma experiência dentro da crise existencial e emocional de sua protagonista Julie, provavelmente um reflexo da própria cineasta. Em três atos bem distintos, a diretora explora a natureza cíclica de um relacionamento, do desejo sexual pulsante e instintivo às consequências que seu término gera, passando pela euforia de seu possível retorno. A falta de diálogos realmente substanciais só põe ainda mais em evidência o foco no corpo, no olhar, no ambiente que ou enclausura Julie ou a liberta mesmo que por um breve momento. Um exemplo do Cinema como dilatador do tempo!

A Cor Púrpura
A escritora Alice Walker concordou com a venda dos direitos de seu livro vencedor do prêmio Pulitzer, apenas depois de garantir que seria consultora de roteiro e que pelo menos 50% da equipe seria afro-americana ou de algum país do “terceiro mundo” e isso garantiu um filme belíssimo que mostra o sul dos Estados Unidos do início do século XX. Seguimos a vida de Celie, jovem tímida e retraída, vítima de abuso do pai e do esposo, que não consegue mais ver um futuro que não aquele na vida. Algo muda quando ela conhece a amante do marido, Shug, que a trata com carinho e delicadeza. A relação das duas é mais discreta no filme do que no livro por medo de censura, mas ainda é muito amorosa.

E Sua Mãe Também
A bissexualidade por vezes é tratada como um tabu e um medo da homossexualidade. É o caso neste road movie mexicano do mesmo diretor de Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban. Dois jovens aproveitam que as respectivas namoradas foram para um intercâmbio e acabam em uma viagem de carro com uma mulher mais velha e casada para uma praia isolada. Durante a viagem ambos se envolvem sexualmente com a moça, que por sua vez nota a tensão entre os dois e cria uma situação para que eles fiquem juntos, mas isso acaba abalando a amizade deles.

Paixão
Christine é a chefe manipuladora de uma agência de publicidade, e Isabelle é sua talentosa aprendiz. Conforme a ambição das mulheres cresce cada vez mais, De Palma as conduz em uma perigosa e envolvente rivalidade. As duas se veem compreendidas em um jogo com muita dominação, traição, artimanhas e sedução. Até onde elas irão para derrubar uma à outra? Quais os limites para essa competição? Um suspense erótico, cheio de planos belamente articulados, sobre o antagonismo de duas personagens que farão de tudo para chegar onde querem.

Me Chame pelo Seu Nome
O jovem Elio é um tímido amante de música que aproveita o verão na casa da sua família, no sul da Itália, para explorar sua sexualidade. Ele logo se interessa por Oliver, acadêmico que está hospedado na casa de Elio a trabalho. Porém, ao ver sua investida recusada, ele acaba se envolvendo com Marzia. Oliver volta atrás e os dois acabam se apaixonando, mas o acadêmico se recusa a viver o romance e volta para casa, onde fica noivo de uma moça. O filme é um belo coming of age, que usa as paisagens refrescantes da Itália para trazer leveza às descobertas de Elio, por mais que no processo elas acabem machucando ele e outras pessoas também.