Quando Bong Joon-ho venceu o Oscar de Melhor Diretor em 2020, por Parasita, em seu discurso ele citou a frase “quanto mais pessoal, mais criativo”, atribuída a Martin Scorsese. Na história do cinema, podemos perceber que obras realizadas de maneira mais íntima e pessoal têm algo a mais a oferecer, por conta de uma sensibilidade mais forte e utilizada como motor de todo o processo cinematográfico. Isso ocorre em Má Educação, cujo grande trunfo está justamente nessa intimidade.
Toda a metalinguagem da obra se torna um exercício bastante explícito sobre o caráter pessoal das narrativas autorais, capazes de expor sentimentos intensos dependendo da história contada. No caso do filme, essa história se baseia em Enrique, um cineasta em busca de novas ideias e que, por acaso, encontra um sujeito que afirma ser Ignacio, seu antigo amigo e amor de infância. Ele, então, propõe a realização de um filme inspirado em episódios dramáticos envolvendo o período em que viveram juntos em um colégio religioso.
Na primeira parte, o filme apresenta-se como uma espécie de carta de amor disfarçada de ficção, pois conhecemos o passado dos personagens por meio de histórias dentro de histórias – o que evidencia muito a característica daqueles que são fantasiosos no plano afetivo. Dramatizar a própria história e transformar os traumas em narrativas melodramáticas revelam-se como formas efetivas de lidar com os próprios conflitos. A partir do momento em que os dois se reconectam por meio da identificação com os personagens, paira uma nuvem de dúvidas sobre ambos, indicando que há algo naquela relação que parece estar errado.
As cenas no colégio católico remetem, em certa medida, ao filme A Religiosa, de Jacques Rivette, que retrata o espaço religioso como uma espécie de prisão, um plano espiritual separado de todo o restante do mundo, onde a paranoia consome a personagem pouco a pouco e o convento se torna uma extensão dela. No filme de Almodóvar, esse espaço funciona mais como um quartel militar, marcado por disciplinas rígidas e pela presença de uma figura superior que domina seus fiéis — no caso, o padre Manolo. Aqui, a história entra em questões espinhosas envolvendo abusos contra menores de idade, o que acrescenta uma dimensão ainda mais complexa ao drama da dupla principal, que não se limita apenas a uma paixão proibida.
O erotismo do filme traz consigo um profundo senso de libertação após conhecermos o passado dos personagens, como se eles finalmente tivessem se desprendido daquela opressão e se tornado donos do próprio destino. As cenas em que Zahara, a personagem travesti que representa Ignacio, confronta o padre anos depois escancaram esse contraste entre as duas realidades e apresentam um acerto de contas bastante catártico, que, no entanto, ao longo da narrativa, conduz a um desenrolar surpreendente.
Os pontos de virada mais cruciais acrescentam camadas mais profundas a tudo aquilo que havia sido construído na primeira parte e proporcionam reflexões maiores sobre as relações humanas e sobre como os traumas do passado podem deixar sequelas na vida adulta. Como um todo, Má Educação é um filme extremamente criativo, que não tem medo de ousar em seus tabus e de conduzir seus temas com grande naturalidade e honestidade — algo que faz muita falta no cinema contemporâneo.